crise na Europa
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Itália: o fim de um mito?

Sábado a tarde em família. No carro, com os vidros abertos e a rádio ligada, o pensamento corre veloz e entre a lista de afazares que me espera, voltando para casa.

De repente, essa cadeia previsível de acontecimentos é interrompida por um senhor de meia-idade que aproxima-se do nosso automóvel. Bem vestido e com ar respeitável, leva consigo um cartaz com a frase “Aiutatemi, ho perso il lavoro!” (Ajudem-me, perdi meu trabalho!). Ele não é mudo, mas a vergonha por ter que submeter-se ao ato de pedir esmolas é mais forte do que a vontade de verbalizar, a cada semáforo, a própria condição emocional e econômica.

Não é a primeira vez que assisto uma cena como essa. Meses atrás, sempre em um semáforo da capital, fomos abordados por uma senhora de idade e cabelo com laquê que vendia lenços de papel. Era quase meia-noite e perguntamos à ela porque encontrava-se ali, aquela hora. Ela afirmou que o dinheiro da aposentadoria não bastava para pagar as contas.

Nós, brasileiros, estamos acostumados a enfrentar a miséria cara-a-cara porque, em nossas ruas, ela sempre foi evidente e despudoradamente tangível.

Nossa miséria caminha descalça e encardida, não conhece o alternar-se das estações e não mimetiza-se.  Nossas favelas moram ali, ao lado dos bairros nobres, e não nos guetos ou nos campos nômades circunscritos em zonas periféricas.

Nossa pobreza é algo quase sui generis, que merece ser fotografado como um primata exótico, finalmente enjaulado. Como explicar o crescente interesse de estrangeiros por um tour turístico organizado em uma favela como a Rocinha?

Os italianos, não. Pelo menos aqueles nascidos na Itália do pós-guerra, que conheceu o boom econômico e o consumo desenfreado, tem dificuldade até para imaginar o verdadeiro conceito de miséria.

Até pouco tempo atrás, existia na Itália uma nítida fronteira entre “nós, italianos”, e “os outros”. Pobreza era adjetivo para qualificar imigrantes, ciganos.

Agora, a impressão que tenho é que essa fronteira é cada vez mais sutil.

As estatísticas sobre desemprego (12,9%) e queda do poder aquisitivo confirmam essa tendência. Segundo o Eurostat, mais de 18 milhões de italianos correm o risco de exclusão social.

A cada dia que passa a pobreza é mais visível. No que refere-se ao consumo de alimentos, somente os chamados hard discounts mantiveram as vendas estáveis.

O consumo pro capita de carne caiu, em média, de 2%. Aquele de peixe, de 20%. Nos mercados, é fácil cruzar com italianos a procura de roupas usadas para comprar e até nas lojas com proprietários cineses, muitos dos empregados são italianos.

De um dia para o outro diversas lojas fecham as portas e nem o made in Italy se salva. Recentemente, muitas grites italianas foram vendidas para empresas estrangeiras.

A Krizia, por exemplo, foi cedida para a chinesa Shenzhen Marisfrolg Fashion Co Ltd.

Vignamaggio, uma histórica empresa Toscana produtora de vinho Chianti, de propriedade da família Gherardini (aquela da Monalisa), foi vendida para empresários sul-africanos. Seus 42 hectares de vinhedos passam para mãos estrangeiras.

Entre os jovens com idade de 15 a 24 anos, o desemprego chega a 42,4% e, sem trabalho ou nenhuma perspectiva profissional, poucos casais conseguem ter acesso ao crédito para comprar casa própria e construir uma família.

Na Europa, os cidadãos que não trabalham, não estudam e não frequentam um curso de formação são chamados de Neet (Not in Education, Employment, Training). Por esse motivo, nos últimos dez anos, o número de jovens que imigrou passou de 50.000 para 106.000.

Somos capazes de nos reeeguer ou será que esse momento de crise econômica coincide com o fim do mito de um país?

Credits foto: Alejandra Daglio

 

 

 

This article has 2 comments

  1. Dani Bispo

    Segundo meu marido que é economista-italiano-imigrado enquanto não acabarem com a moeda euro, a Itália (e outros países na zona do euro) só tende se afundar assim como foi com a Grécia. Segundo seus estudos, é um caminho sem volta.

    Eu morro de pena pois tinhamos planos de um dia, morar na Itália, mas com essa crise que só cresce, nossos planos vão sendo sempre adiados. Tenho muito medo da crise no qual me afetou por anos aqui no Brasil.

    E ao meu ver? essa crise tem jeito?
    Tem, porém o enriquecimento de alguns países são às custas da pobreza de outros, infelizmente!
    bjs
    Dani Bispo

  2. Anelise Sanchez

    Oi Dani, pois é, esse assunto daria pano para manga…
    Euro sim ou euro nao, os problemas da Italia são a corrupção, o nepotismo, uma classe politica falida…

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