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DiárioSexto Sentido

O Brasil do muro imaginário

Esse é um post que foge do tema “turismo”, mas como jornalista gostaria de compartilhar com vocês algumas considerações que envolvem a sociedade brasileira, aquela italiana e diferenças sócio -culturais entre a Europa e o nosso país. Conversar a respeito nos ajuda a entender melhor as nossas diferenças e semelhanças e explica porque, geralmente, o olhar do brasileiro expatriado sobre a própria pátria é um misto de euforia e desilusão.

O fato de viver no exterior há mais de uma década não pressupõe uma ruptura com o meu passado, as minhas origens. Muito pelo contrário. Implica uma dupla responsabilidade como cidadã imergida em duas culturas, duplo empenho civil.

Também aviso que não tenho a pretensão nem competência para redigir nenhum tratado científico a respeito. Escrevo só algumas reflexões.

Na última quarta-feira, dia 13 de novembro, o canal de televisão estatal RAI 2 transmitiu o primeiro episódio de um novo programa intitulado “Razza Umana” e um dos temas abordados durante a transmissão foi o Brasil.

Mais especificamente, uma reportagem sobre o tradicional baile de debutantes na alta sociedade brasileira. Leia-se: cifras astronômicas para a organização da festa, vestidos assinados por estilistas da haute couture e ostentação quase ofensiva.

Vocês podem rever o vídeo aqui (a reportagem sobre o Brasil começa mais ou menos aos 39 minutos do programa), mas antecipo que me entristeci ao assisti-lo.

Nada contra as debutantes (também já tive 15 anos, apesar de não ter realizado nenhuma festa para comemorá-los) mas a reportagem é um emblema da vertiginosa disparidade presente na sociedade brasileira.

Vamos por partes. Claro que qualquer cidadão é livre para gastar o próprio dinheiro, desde que conquistado de maneira honesta, como bem preferir.

O problema é que na cultura brasileira o status de um indíviduo é igualmente propocional ao seu estilo de vida. Cada cidadão tenta reafirmar continuamente a própria condição social com carros importados e de luxo – preferivelmente blindados – roupas de marca, aparelhos eletrônicos de última geração, número de empregados e faxineiras. O sucesso de uma publicação como a Caras, a transmissão de um reality show sobre mulheres extremamente ricas, a multiplicação de catedrais do consumo como os shopping centers ou a urbanização selvagem típica das grandes metrópoles – com seus prédios de luxo, guarda costas e heliportos – são indicadores importantes.

Esse mesmo modelo – de maneira mais ou menos implícita – também dita o comportamento da outra esmagadora parcela da sociedade brasileira, aquela com um poder aquisitivo infinitamente menor, mas capaz de endividar-se com diversas parcelas de um cartão de crédito para comprar objetos como um par de tênis ou um como o Iphone 6. O fenômeno chamado de ascensão da nova classe média.

Os especialistas sustentam que o Brasil é a bola da vez e que o país está crescendo em um ritmo invejável. Verdade, segundo os principais indicadores econômicos.

No entanto, apesar do progresso e de investimentos em programas de redução da pobreza, ainda possuímos uma das piores distribuições de renda do planeta.

O Brasil tem a segunda pior distribuição de renda no ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os dados foram divulgados em publicados em março de 2013 e por esse motivo, considero a cultura da ostentação brasileira inaceitável.

Muitos amigos europeus que viajaram para o Brasil surpreenderam-se negativamente com cenas como aquela de uma família brasileira que, durante as férias, levaram consigo a babá dos próprios filhos e faziam questão de demarcar as próprias posições sociais obrigando a babá a vestir-se com o seu clássico uniforme.

Não me interpretem mal. A Europa está longe de ser o continente perfeito.

Os últimos anos de crise e austeridade demonstram a falência de um projeto capaz de ir além da unificação monetária e as mazelas sociais do continente crescem a cada dia. Na Itália, em particular, os níveis de desemprego e pobreza são alarmantes e a política não consegue resolver problemas históricos como a burocracia, a crise de representatividade política, a corrupção, a sonegação de impostos, os privilégios dos vértices institucionais, os baixos investimentos em educação e pesquisa científica, a marginalização dos imigrantes (tema para um outro post), só para citar alguns dos nós da sociedade em que vivo desde 2001.

No entanto, o que me salta aos olhos sempre que volto ao nosso país é que, graças ao grande gap entre as classes sociais, os brasileiros, em geral, tem muito mais regalias do que a média dos europeus. No velho continente, faxineiras e babás cobram por hora e representam um luxo que poucos podem pagar. Sair para jantar fora todo final de semana? Idem. Quase todo mundo arregaça as mangas e cozinha. Trocar de carro frequentemente? Privilégio para poucos. Morar em um condomínio com parquinho e piscina? Um sonho. Para ir ao trabalho, a maior parte das pessoas leva marmita e pega condução toda manhã.

Em compensação, pelo menos por enquanto, na Europa ainda temos garantia de acesso à escola e à saúde pública (por mais imperfeito que seja), um sistema de mobilidade urbana que tenta se aperfeiçoar em vez de aumentar o número de carros em circulação (lembram do slogan: País rico não é aquele que pobre anda de carro. É aquele que rico anda de transporte público) e, principalmente, a possibilidade de circular pelas ruas sem medo de deixar o vidro do carro aberto.

Coincidentemente, vejo que esse tema também é abordado por outros brasileiros que moram no exterior. Se tiverem interesse, leiam aqui o interessante post publicado pelo Daniel, do blog Ducs Amsterdam.

Ainda falta, no Brasil, uma transformação estrutural qualitativa que inclua a ampliação do exercício da cidadania, mecanismos institucionais de proteção social pública e, principalmente, espírito de coletividade em vez de incentivo ao consumismo e ao sucesso individual e à cultura da opulência.

Tenho a impressão que estamos erguendo um muro imaginário entre as duas faces da sociedade brasileira.

Passeando por qualquer shopping center no Brasil notei que um par de tênis pode custar mais que um salário mínimo. Não sei se estamos perdendo o controle sobre o que é real e o que conto de fadas ou eu sou a única a achar isso estranho.

Parafraseando Vinícius de Moraes: “..Vontade de beijar os olhos de minha pátria, de niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…De perguntar a ela: para onde é que estamos indo?

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This article has 8 comments

  1. Deyse Ribeiro

    Maravilhoso! Apesar de ser uma expatriada como voce trabalho com nossos conteraneos brasileiros todo dia, e me assusto cada vez mais com esse fenomeno de ostentaçao/afirmaçao muito irreal, pensava que era uma visao so minha, obrigada por retratar assim tão bem neste texto. Parabens! Acho que todos deveriam ler! Vou compartilhar! Abs

  2. Dani Bispo

    Alejandra
    O Brasil para mim segue o modelo capitalista de consumo desenfreado americano.o que mais me impressiona aqui é que quanto mais pobre, mas consumista a pessoa é! É certo que a Itália está longe de ser o exemplo, mas a diferença que vejo entre a classe média Italiana e Italiana é justamente é que a segunda não tem a necessidade de ostentação. O meu marido quando chegou aqui ficava (ainda fica) surpreso com o tamanho das festas infantis (muitas vezes para uma criança de 1 ano que mal entende o que está acontecendo). O que mais me aborrece são os valores dessa classe. Passa-se uma vida trabalhando para manter um padrão, trocar de carro, comprar roupas de grifes e no entanto mal conhece a esquina da sua casa. Que dirá o mundo.

  3. Anelise Sanchez

    Pelo menos essa é a minha sensaçao todo ano que volto ao Brasil. Obrigada por compartilhar!

  4. Anelise Sanchez

    A grande diferença é que o gap entre as classes sociais européias é bem menor e por isso ninguem aceitaria trabalhar o dia inteiro como baba, por exemplo, em troca de poucos euros.Para ter direito a um sistema de welfare mais garantista, precisamos renunciar a alguns privilegios e nao sei se todo mundo estaria disposto a ceder a algumas regalias…

  5. Dani Bispo

    Só que aqui também tem uma coisa mudando:as empregadas domésticas estão estudando e já não aceitam mais trabalhar por baixos salários e sem benefícios como antigamente. Está custando uma fortuna para a Classe média manter uma doméstica ou babá. Estou assistindo aqui no meu condomínio mulheres largarem seus empregos para cuidadar dos seus filhos pois seus salários não cobrem as despesas,
    Sinceramenre não sei se isso é bom ou ruim já que o o governo não colabora com creches decentes por exemplo.
    Acho complicado!
    Bjs
    Dani

  6. Anelise Sanchez

    Acho que é algo fisiologico em uma sociedade que esta evoluindo….

  7. Matheus Bianchini

    Oi Anelise, eu sou pacifista e defensor dos Direitos Humanos, eu vou dar minha opinião sobre o caso do bandido que foi baleado ao tentar roubar uma moto em São Paulo.
    A tentativa de assalto aconteceu na Av. Assis Ribeiro, na Penha, zona leste de São Paulo. Não muito longe de onde eu também já sofri uma tentativa de assalto. Felizmente eu consegui correr e escapar.

    Nem me surpreende mais o que eu vejo nos comentários: “bandido bom é bandido morto”, ”eu tinha chutado a cara dele” e outras coisas do gênero. Não me assusta mais, porque já está claro pra mim que no Brasil as coisas materiais são sagradas. As pessoas dão suas vidas para comprar coisas, então as veem como o que há de mais importante no mundo e são capazes de matar e morrer por elas. Quando se fala de carros e motos então, isso se confirma ainda mais. O documentário: “Sociedade do Automóvel” mostra como os veículos motorizados viraram praticamente uma religião fundamentalista, principalmente em São Paulo.

    Eu sei como é horrível a sensação de ser assaltado, só que o que eu penso é: como podemos acabar com isso? O pensamento de “matar todos os bandidos” é ridículo não só porque seria um holocausto, mas também porque é óbvio que não resolveria o problema. Já se têm se matado muitos bandidos todos os dias e o crime continua a avançar.

    A gente tem que entender o que tem gerado os assaltos! Tem um experimento que mostra como macacos reagem quando sofrem injustiça. Os humanos também são hominídeos e também ficam violentos perante a desigualdade.

    O Brasil é um dos países com maior desigualdade no mundo, mas tem outros fatores que contribuem para o crescimento da violência: a difusão de valores pobres pela grande mídia, a falta de educação e de condições humanas de vida.

    Então ao invés de ficar comemorando quando um assalto é impedido, se a gente quer soluções reais e quer o fim dessa verdadeira guerra urbana, a gente precisa é achar bonito andar de bicicleta, a gente precisa de novos valores e de novos sonhos! Precisamos garantir educação e condições de vida digna pra todos. Senão, vai continuar a mesma história onde se mata um bandido e aparecem mais 10.

    No pacote “valores pobres”, também incluiria a ostentação. O brasileiro atual parece apegado demais a isso, e acredito que tem a ver com o que você falou, Com certeza é um dos motivos pelo qual raramente veremos alguém indo trabalhar de bicicleta ao invés de sair com o seu Porsche Cayenne.

  8. Anelise Sanchez

    Obrigada pelo comentario, Matheus! Entendo a sua posiçao. A Italia esta longe de ser um paraiso, mas acho que a crise economica e a austeridade dos ultimos anos tem contribuido, pelo menos um pouquinho, para uma mudança de paradigma. Muitos italianos tem reconsiderado os proprios valores e prioridades e hoje o consumismo desenfreado nao é mais para todos…essa situaçao tambem provocou mais atos de violencia, mas nao nos niveis que estamos acostumados a ver no Brasil…
    Somos uma democracia muito recente, quase embrionaria, e espero que com o tempo a desigualdade diminua no nosso pais…

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