Roma durante o verão
Sexto Sentido

MICRO-HISTÓRIAS ITALIANAS – Roma no verão não é uma cidade para frágeis

Para os turistas, o verão em Roma é sinônimo de dolce vita. De dias de sol até tarde. De aperitivo en plein ar. De movida em Trastevere. Outra história é aquela composta pelos moradores que – nos tórridos dias de julho e agosto – vivem o lado mais amargo de uma grande metrópole. Aquele de quem sente-se quase intruso em uma capital vítima do grande êxodo das férias de verão.

Como descrevi no post Desmistificando: como é Roma no verão de agosto, a cidade não para, mas desacelera. Nas horas de pico,  nem o termômetro dá conta do recado. Só mesmo as pombas mais temerárias enfrentam o calor fazendo uma pausa no busto de mármore de algum patriota ilustre.

Uma das categorias mais penalizadas durante o verão em Roma é aquela dos idosos. Falo daqueles que vivem autonomamente, mas sofrem com a dificuldade de ocupar o próprio tempo ou de alterar a própria rotina no mês em que a cidade é semidesértica.  Os vizinhos viajam e deixam suas plantas para serem regadas. Os filhos e netos também partem. Com o calor fica complicado até chegar na praça mais próxima para jogar conversa fora e fazer palavras cruzadas e a Itália é um dos países com maior índice de população over 70.

visitar Roma em agosto

Nesse período do ano a prefeitura ou associações de voluntariado organizam serviços como a entrega de remédios a domicílio e colocam à disposição um número 0800 para informar os moradores sobre os horários mais quentes do dia. Nos hospitais, é comum encontrar pessoas de idade desidratadas ou que tiveram que chamar uma ambulância na ausência de um parente mais próximo.

A solitudine não é tão rara por aqui. Outro dia, lendo a edição impressa de um  jornal local, encontrei linhas que me deixaram perplexa. Em plena era digital e da interação contínua incentivada pelas mídias sociais, cruzei com uma página repleta de anúncios de pessoas – principalmente em idade avançada – que declaram-se à procura da cara-metade ou de emoções fortes. Um nome real ou fictício e um número de telefone. A cura para a solidão urbana é a esperança que o telefone toque.

Cada um procura a própria salvação na cidade que também pode ser pouco generosa com seus cidadãos “adotivos”. Se o inverno pode ser hostil com os imigrantes sem-teto da capital, o verão não é uma estação menos complicada para quem vive, parafraseando Caetano Veloso, sem lenço e sem documento.

Sob o sol tórrido, basta circular logo cedo pelas ruas da periferia mais remota da cidade para notar, ao longo das calçadas, uma longa fila de homens que oferecem a um público desatento de motoristas a única coisa que lhes restou: a própria mão-de-obra.

Quase sempre munidos de uma bolsa porta marmita e mastigando um vocabulário mínimo de italiano que lhes permita  “pechinchar” os valores de um dia de trabalho, aguardam. Aguardam que um carro se aproxime e que de um vidro abaixado alguém decida se aquele será ou não um dia de pintura, de conserto hidráulico, de pedreiro ou um dia de mãos vazias.

Quem pode procura abrigo e um lugar fresco em uma catedral no deserto como um shopping center. Naquele próximo a minha casa, toda vez cruzo com imigrante que – faça chuva ou faça sol – veste-se com uma jaqueta de couro e permanece sentado no mesmo banco. Olha para o infinito enquanto deixa o seu celular carregando na tomada mais próxima, mas é transparente para quem circula entre as vitrines do shopping.

No fundo, todos aqueles que permanecem em Roma em pleno verão tem algo em comum. Todos aguardam. Que o telefone toque. Que o amor chegue. Que o trabalho se concretize. Que o verão passe e ceda espaço a um novo outono.

 

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