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Diário

Saudade diluída em potinhos

Existe um fio imaginário que une os brasileiros que moram no exterior. Um sentimento difícil de ser catalogado e que insinua-se com prepotência na mente, nas veias, no coração. É a necessidade de atenuar o abismo entre quem está do lado de cá e quem ficou do lado de lá. A separação momentânea ou definitiva entre pais e filhos.

Somos seres racionais. Vivemos na era do satélite, da fibra ótica, das mídias sociais, do efêmero e da ilusão de felicidade compartilhada. Acreditamos poder afastar a solidão. De dominar o tempo.

Para um expatriado, após os primeiros momentos de deslumbramento, a urgência de reatar laços é vital. Percebemos que as novas relações e vínculos criados no país – por mais importantes que sejam – não substituem mas complementam aqueles com a família de origem. Que os anos assumem uma conotação bem diferente e que sentimos extrema falta de nos “sentirmos filhos”.

Quem educa crianças longe de avós e parentes sabe que nunca pode delegar as próprias responsabilidades. Não há como desatar as rédeas. Não somos autorizados a vacilar. Assim, cada vez que pais e filhos que moram no exterior se reencontram a primeira reação é aquela de estudar-se reciprocamente. Novos fios de cabelos brancos, uma ruga evidente ou uma roupa nova nos faz pensar em quantos gestos cotidianos deixamos de compartilhar. A distância separa e, paradoxalmente, une. Um é o espelho do outro. No bem e no mal.

O momento das férias é, de uma certa maneira, uma corrida de obstáculos e um balanço entre passado e presente. Nos poucos dias passados juntos tentamos recuperar a intimidade, colocar a conversa em dia, nos informar sobre o destino de parentes e amigos queridos, cumprimentar os velhos e novos vizinhos e redescobrir sabores esquecidos. Queremos descobrir o que foi e o que não foi reformado, se aquela velha calça jeans guardada há anos no armário ainda serve, se o cachorro ainda nos reconhece, se a padaria permanece aberta, se a linha de ônibus para o centro ainda é a mesma e, enfim, se nós ainda somos os mesmos.

morar no exterior

Nada como ter um cúmplice que ri espontaneamente ao som de palavras como “siricutico” ou “chulé”, que não te olha estranho se você sair de cabelos molhados ou calçar chinelo de dedo com meias, ou relembra as suas peripécias na infância.

Pessoalmente, vivo cada reencontro como um condensado de emoções. Emoções que aprendi a diluir e guardar em vários potinhos que serão consumidos lentamente até o encontro seguinte. Porque aquele abraço apertado e silencioso que trocamos no aeroporto traduz algo como “sim, sei que o tempo está passando pra vocês e para mim, mas vou levá-los sempre comigo aonde quer que eu vá”.

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