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Via Crucis
Sexto Sentido

Via Crucis na Itália entre religião, história medieval e folclore

A noite de sexta-feira da Semana Santa, conforme exigido pelo calendário litúrgico da Igreja Católica, é o momento do intenso rito religioso da Via Crucis. O ritual ocorre em todo o mundo cristão, de maneira participativa, muitas vezes em uma forma cenográfica e espetacular, para representar simbolicamente não só o caminho de Cristo para o monte Gólgota, o lugar da crucificação, mas também a vida humana na terra.

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Para a Via Crucis em Roma, na qual que a cruz é levada até o interior do Coliseu, este ano o Papa Francisco encarregou a teóloga Anne-Marie Pellettier de escrever as meditações que serão lidas em cada estação.

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A intelectual, como indicado no press release do Vaticano, escolheu aqueles que segundo ela são os aspectos fundamentais da Paixão de Cristo, como quando é negado por Pedro ou a dor que ele sente, analogamente ao sofrimento de muitos homens de hoje. Em sua explanação, ela chega a tocar temas delicados como aquele de mulheres e crianças violentadas. Certamente uma interpretação muito moderna. Quem sabe esta escolha antecipe a possibilidade, em um futuro, de um papel diferente das mulheres na comunidade eclesial?

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Em muitas outras cidades da Itália a celebração acontece segundo as tradições das comunidades locais e também de acordo com os recursos disponíveis. Muitas vezes, em algumas cidades, é uma mistura entre o rito religioso da penitência e da reconstrução histórica e folclorística, como já citei em outros posts sobre este tema. Se trata de eventos organizados em conjunto com irmandades, associações, companhias de teatro e outras instituições. Todos sentem-se envolvidos pelo evento emocionante que às vezes ultrapassa o aspecto espiritual. Talvez nem todos saibam que a tradição da Cruz nasceu como uma representação teatral, na Idade Média.

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Do desejo de reproduzir diante dos fiéis, de maneira mais realista, os momentos da vida de Jesus, durante a missa existia a tendência da representação dos chamados ‘dramas litúrgicos’. Os eventos foram se tornando cada vez mais articulados e enriquecidos por dispositivos cênicos que deveriam ser representados fora das igrejas, na maioria das vezes nas praças onde eram realizados os mercados. Eram encenados, com atores não profissionais, na época odiados e quase sempre mal pagos, histórias de santos, passagens da Bíblia e outras questões de caráter moral. As representações sacras (milagres ou mystères) tornaram-se eventos típicos entre os séculos XII e XIII.

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O aspecto interessante é que os momentos da representação não aconteciam em um único palco, mas eram distribuídos em diversos pontos simbólicos, em linha reta ou em um semicírculo. Os espectadores estavam em pé, na praça, e a atenção de cada um era atraída por uma espécie de percurso (observe os detalhes dos mapas abaixo).

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De um lado estavam a sepultura, o céu e o lugar de Marias dos discípulos, por outro lado, existiam lugares como a prisão, o inferno, a casa de Pilatos. Em frente ao crucifixo ficavam Emaús e a Galiléia.

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É possível compreender que com o ritual Via Crucis reproduz, pelo menos em parte, esta forma de representar e contemplar os momentos salientes da Paixão de Cristo. Muitas tradições italianas, especialmente em cidades pequenas de província, têm um caráter penitencial e são uma herança das performances itinerantes. Pessoas que se flagelam com pedras, vidro ou chicotes são fiéis penitentes e ao mesmo tempo atores, em eventos onde a religião e folclore parecem não ter nenhuma fronteira.

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