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Sexto Sentido

Vida de expatriado; saudade de segunda geração

Como todo expatriado, enfrentei duas fases desde que me mudei definivamente para a Itália.

Inicialmente, aquela de descobertas e perplexidades, como a supresa diante de diferenças culturais, a dificuldade para acostumar-me com os filmes dublados, com as blasfêmias corriqueiras, com o fato de estacionar o carro na rua ou soletrar ao telefone usando as iniciais de cidades italianas.

Depois de treze anos, a segunda fase é aquela em que a relação com o país é tão simbiótica que todas as divergências tornaram-se fisiológicas.

Cheguei ao ponto de não suspirar mais toda vez que passo diante do Coliseu ou perceber que, quando escrevo, costumo inventar palavras em uma versão muito pessoal do português.

O que antes era novidade agora é rotina, mas isso não é ruim.

Nunca sofri de forte depressão por estar longe de minha terra natal, mas claro que, em vários momentos, a melancolia falou mais alto.

O que não imaginava é que a relação da minha filha com o meu país de origem pudesse tornar-se intensa, visceral. Um sentimento que eu poderia definir como saudade de segunda geração.

Minha filha nasceu e cresceu em Roma e nunca tentei impor a ela a cultura brasileira.

A aproximação foi gradual e costante, inicialmente com o idioma português, que começou a aprender para valer a partir dos três anos de idade, quando ela já possuia perfeito domínio do italiano.

A familiaridade com a nova língua foi alimentada por livros, DVD´s, músicas e viagens anuais ao Brasil.

Pouco a pouco, a identidade daquele ser pequenininho, hoje com quase dez anos de idade, começou a delinear-se e ela passou a compreender as dores e as delícias de uma dupla cidadania.

Quando falo em pluralidade de cidadanias não me refiro aos passaportes, mas à complexidade da miscigenação sociocultural , à impossibilidade de sentir-se exclusivamente italiana em solo italiano ou unicamente brasileira em solo nacional.

Para mim integrar-me significou conservar a minha antiga cultura, conjugando-a com o aquela que me é nova, buscando o máximo do sincretismo.

Minha filha ganhou novos valores, personalidade, perspectivas. Descobriu que pode circular de chinelo de dedo sem que ninguém a julgue por isso. Que ler gibi em português e compreender as gírias é gratificante.

Que lambuzar-se de brigadeiro enquanto ri, com a tia, é algo que guardará na memória. Que aprender violão ou sudoku com o avô deixa ela feliz sem razão, como ela costuma dizer.

Que tomar caldo de cana e comer pastel na companhia de quem ama é algo que não tem preço.

Que fazer voluntariado e receber um sorriso em troca vale mais que uma mesada.

Por outro lado, está constatando que viver intensamente essa brasilidade por poucos dias do ano é doloroso. Que cada viagem ao Brasil é, ao mesmo tempo, ida e volta. Alegria de reencontrar, tristeza ao deixar.

E vice-versa quando retornamos à Itália.

Aos dez anos ela consegue verbalizar esse sentimento, exprimir com palavras e, às vezes lágrimas, aquela saudade que nós, adultos, encontramos no verso de uma canção, em uma fotografia deixada ali, no meio de um livro, em um sabor que a gente insiste, inutilmente, em recriar em terra estrangeira.

Eu já estava até conformada com o fato de receber notícia velha das amigas, de ver que os filhos delas deram seus primeiros passos e eu não estava lá.

Sempre foi difícil ter deixado, momentaneamente, o papel de filha de lado e assumido a maternidade sem poder delegar. Aceitava bem o fato que, junto com meu marido, seríamos os únicos responsáveis pelos méritos e insucessos da prórpia filha.

Infelizmente, expatriado não pode contar com os avós para pegar os filhos na escola e avôs que moram longe não podem sentir o perfume do nenê, não escutam os netos pronunciarem suas primeiras palavras, não podem levá-los para observar joaninhas ou abraçá-los quando recebem seu primeiro boletim.

Sabia disso quando me mudei para cá e acreditava que cada momento junto da prórpia família, que cada minuto passado no Brasil seria capaz de atenuar a distância.

O que não podia imaginar é que ver o sofrimento de minha própria filha a cada partida doia mais do que a própria saudade.

A tecnologia é nossa aliada e nos dá a sensação temporária de poder cruzar, momentaneamente, o oceano Atlântico. Isso até inventarem alguma forma de teletransporte, como deseja minha filha.

Porque saudade não morre, só adormece.

 

 

This article has 17 comments

  1. Cristina Souza da Rosa

    Que texto lindo! Parabéns! Realmente, saudade não morre. Só adormece.

  2. Anelise Sanchez

    Obrigada, Cristina. A escritura é uma grande aliada da saudade! 😉 Não resolve, mas ajuda.
    Abs,
    Anelise

  3. Eliane

    Te escrevo aqui a minha experiência, após ter lido e apreciado a tua.
    Vivi 27 anos na Holanda, onde nasceram 2 dos meus 3 filhos. Sou metade brasileira, metade italiana, casada com um romano. Mudamos para a Holanda à trabalho, quando o filho mais velho tinha 9 anos. Ele nasceu no Brasil, onde viveu até os 8 anos. Mudamos pra Roma por 1 ano e ele foi para uma escola italiana. Dali mudamos para a Holanda e decidimos que a melhor escolha seria uma escola em inglês, pois se tivessemos que mudar novamente dentro da Europa seria mais fácil manter uma lingua usada globalmente. Na Holanda nasceram os outros 2 filhos. De 2 a 4 anos estes filhos foram para um jardim de infancia holandes,dos 4 em diante decidimos que seria melhor todos 3 filhos frequentarem a mesma escola . Optamos pela escola Americana na Haia.
    Porém, eu com os 3 filhos sempre falei portugués desde que nasceram. Sempre achei que o carinho passado aos filhos com a própria lingua não tem preço.
    Durante o dia a escola era em inglês, com aulas diárias de holandês. Na rua se falava holandês. Quando voltavam da escola às 4 da tarde, faziam um lanche enquanto assistiam os desenhos da TV BBC inglesa. Depois disso , deveres de casa em inglês e holandes. Quando chegava em casa meu marido para jantar se falava em italiano e se via televisão italiana. Naquela época estava começando a internet.Ninguém tinha internet em casa, somente escolas e escritórios iniciavam a ter computadores.
    Na hora de dormir tinhamos um cantinho de leitura com almofadas no chão de cada quarto. Eu me sentava com os filhos ali e lia para ele as revistinhas em quadrinhos que minha mãe mandava do Brasil ! Mónica, Cascão, Cebolinha… A filha , que é a mais nova, nem estava alfabetizada ainda , mas seguia com tanta alegria tudo !
    E assim cresceram, falando 4 idiomas num mesmo dia, sem se confundir ( quando você aprende desde criança fica tudo mais fácil !)
    As refeições eram um dia comida italiana, no outro brasileira, com várias coisas holandesas que gostavam e com coisas americanas que comiam na escola ou casa de amigos.
    As férias de dezembro eram no Brasil ! Que alegria sair do frio da Holanda e enfretar os 40 graus do Rio. Chupar manga colhida no pé, brincar no quintal da vovó com os cachorros, e a primeira coisa que minha filha disse aos 4 anos quando chegou ao aeroporto no Rio e ouviu as pessoas conversando : mãe ! Aqui todo mundo fala igual a você!
    Foi a primeira vez que ela entendeu que em um lugar todos falavam a mesma lingua !
    Acabavam as 3 semanas de férias ! Hora de voltar ora Holanda e pro frio ! Tristeza de não ter guaraná !
    Mas apenas chegavam no aeroporto do Rio e à esperava do avião ouviam alguém falar holandês dizian : já estamos nos sentindo em casa !
    Férias de julho na Itália ! Loucos pra comer a verdadeira pizza e rir dos jeito meio louco do transito em Roma ! Cimprar novos livros de história em italiano pro filho do meio que sempre amou os passeios aos museus e cidades medievais que faziamos ! ( Hoje ele é arqueologo !)
    Na Holanda, uma vez por semana , depois da escola, eles estudavam 1 hora de italiano. O governo italiano mandava professores italianos em cada escola européia que tivesse 8 ou mais crianças italianas. Curso gratuito. Os filhos adoravam conversar e brincar em italiano com outras crianças. Além disso eu os levava ai catecismo italiano uma vez por semana na casa de uma senhora muito simpática , que depois do catecismo jogova uma bola de futebol no quintal e todas as crianças, meninos e meninas jogavam num mesmo time, correndo e se divertindo em italiano.
    Era tudo tão natural para eles, nunca se confundiam com as linguas, podiam se comunicar com os avós no Brasil e Itália sem problemas.
    Como sua filha, a volta das férias era meio triste, mas logo entendiam que a espera para o próximo ano, próximas férias no Brasil ou Itália era a coisa tão sonhada que já iam dizendo : será que os cachorros da vó vão crescer muito até o ano que vem ? Será que os coqueiros vão dar muito côco como este ano pra gente tomar água de côco na piscina ?
    Hoje são todos adultos. Um já está casado. Mudaram-se várias vezes, para vários paîses, falam algumas outras linguas.
    O mais velho estudou na Suíça e vive na Dinamarca. O do meio fez universidade na Inglaterra onde trabalhou por vários anos e hoje é casado com uma americana e mora na Califórnia.
    A filha mais nova fez universidade em Montreal no Canadá, e hoje trabalha em Florença.
    Meu marido aposentou na Holanda, eu deixei meu trabalho de professora na escola Americana na Holanda e nos mudamos pra Roma. Agora vivemos os meses de verão Europeu na Itália e o no inverno Europeu a gente vem pro Brasil.
    Graças a internet, hoje pdemos nos comunicar com os filhos facilmente.
    Hoje temos uma lingua própria entre nós : na mesma frase usamos palavras em holandês, português, ingles e italiano.
    Porém, quando os filhos escrevem ou falam só comigo é sempre em português, só com o pai, sempre em italiano, e quando estão sozinhos, entre eles, falam em inglês e com algumas coisas em holandês.
    Minha vida de expatriada, apesar dos primeiros anos de adptação, foi muito gratificante e penso que muito enriquecedora para meus filhos !
    Desculpe pelo comentário enorme !
    Beijos, baci, kisses, kussen !
    Eliane

  4. Nah - Pra ver em Londres

    Parabéns pelo belíssimo post! 🙂

  5. Anelise Sanchez

    Agradeço! Compartilhar emoções faz bem!

  6. Anelise Sanchez

    Adorei conhecer um pouquinho da sua história, Eliane. Mulher forte você, hein? Também enfrentou várias mudanças com muito jogo de cintura.
    Nós criamos os filhos mas não somos donos deles…Não importa para onde vão, acho que o mais importante é que eles nunca se esqueçam de onde vem.
    Abs,
    Anelise

  7. Ricardo Dellai

    Bem interessante o seu relato, a barbara que vive na toscana tem uma experiência parecida. Com a crise se agravando em toda europa, já vejo muitos italianos voltando ao brasil. Penso que tudo acontece por um motivo. Só que a situação do brasil está deplorável. Cordiali Saluti.

  8. Anelise Sanchez

    Obrigada, Ricardo!

  9. Filomena Barros

    Oi Anelise, li, reli e me emocionei com seu relato e de Eliane tbm. e corroboro com a máxima que esquecer, jogar por terra nossas origens e não ter personalidade… você pode estar bem sim bem em algum outro lugar que não seja sua terra natal, mas lembrar-se que suas origens serviram de trampolim para algo melhor hoje, sim digo melhor, pq. ninguém em sã consciência opta pelo pior. Segure as pontas, segure o “choro” como diria os mais insensíveis e peça ao anjo de guarda de sua filha que acalente seu coraçãozinho tão pequeno, somente no tamanho… mas que se agiganta quando fala de nosso país, tal qual a sua dimensão geográfica.
    Beijo enorme

  10. Anelise Sanchez

    Que comentário adorável, Filomena.
    Obrigada pelo carinho.
    Abs,
    Anelise

  11. Evelise Bianchi

    Lindo texto!! Parabéns!! A saudade jamais irá morrer. Beijos.

  12. Anelise Sanchez

    Obrigada, Evelise.

  13. Deb

    Anelise,
    Adorei o post!
    Sendo casada com um italiano, já sei o que me espera 🙂
    Abraços

  14. Denya Pandolfi

    Anelise, endosso tudo o que disse… quanta emoção e verdade neste texto. Lindo o seu depoimento.
    Um beijo grande de Firenze!
    Denya

  15. Anelise Sanchez

    Obrigada, Denya. Também apreciamos muito o seu trabalho.
    Bjs,
    Anelise

  16. Anelise Sanchez

    Obrigada e boa sorte para você!
    Abs,
    Anelise

  17. Anelise Sanchez

    Obrigada, Evelise!

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