made in Italy
Sexto Sentido

Itália, menos shopping centers e mais manualidade

Uma mudança condescendente e silenciosa está mudando gradualmente a fisionomia do tão invejável made in Italy e também aquela das cidades desse país.

A cada dia que passa, a mídia anuncia a venda de históricas marcas italianas para empresas estrangeiras.

Em 1988, a suiça Nestlé comprou a Perugina (aquela do bombom Bacio), mas essa operação representou só a ponta de um grande iceberg.

artesãos na Itália

Bulgari, Fendi, Loro Piana, Gucci, Bottega Veneta, Ducati, Valentino, Garofalo e Fiorucci, só para citar alguns nomes, não são mais de proprietários italianos.

Até uma das sorveterias mais famosas de Roma, a Fassi, fundada em 1880, foi vendida aos coreanos da Haitai Confectionery and Foods Co.

pincéis

Enquanto isso, também assistimos a uma mudança – talvez irreversível – nos centros históricos de grandes cidades italianas.

Nós, brasileiros, estamos acostumados com as compras em templos do consumo – como shopping centers – e com a facilidade de encontrar tudo aquilo que precisamos em um único lugar.

Em Roma e em outras cidades do país, ao contrário, ainda é comum viver intensamente no microcosmo do próprio bairro.

loja via Margutta

Me explico melhor. Comprar o pão na padaria, a carne no açougue, o botão para pregar na camisa na mercearia, levar o relógio sem ponteiro no relojoeiro e o assento do automóvel que precisa ser revestido no tapeceiro.

Bem pertinho da minha casa, por exemplo, existe o laboratório de um profissional conhecido por forrar com maestria os bancos de carros de época e outro de um artesão que realiza sapatos sob medida.

pintora em Montepulciano

Esse universo, no entanto, corre sério risco de extinção.

A essa altura, você poderá perguntar: “Ok, mas o que esses dois fenômenos possuem em comum e o que muda se os pequenos comerciantes desaparecerem?”.

A esse ponto, a minha resposta é: “muda tudo”.

laboratório artesão

A transferência de empresas italianas a mãos estrangeiras e a “morte” dos pequenos comerciantes não comportam, simplesmente, o fim de uma ou diversas categoria profissionais. Implicam a extinção de um modo de relacionar-se, de interpretar o mundo ao seu redor.

Esperar na fila do açougue que frequenta sempre significa chamar o açougueiro pelo próprio nome, bater papo com quem está ao seu redor, ter a certeza que se esquecer a carteira em cima do balcão e voltar naquele estabelecimento no dia seguinte os seus euros ainda estarão lá.

Para não falar da vida ao aberto. Nada como a possibilidade de fazer compras ao livre, em vez de frequentar espaços fechados, decorados com plantas artificiais.

Me desculpem, nas não consigo entender o prazer de provar pistas de esqui como aquelas construidas dentro de um shopping center em Dubai.

rilegatore

Já a venda de grandes grifes nacionais da moda para estrangeiros pode, eventualmente, significar o fim de uma categoria de profissionais como alfaiates e artesãos do couro, entre outros, e que sempre representaram o orgulho da manufatura made in Italy.

Em pequenas cidades da Toscana, por exemplo, ainda é comum cruzar com quem dedica-se à arte da cerâmica, quem confecciona objetos de cobre ou realiza cadernos a mão, mas até quando teremos esse privilégio?

Cerca de 50% dos empregos na indústria de vestuário de Varese, no norte da Itália, desapareceram entre 2001 e 2011.

Estamos perdendo habilidades manuais raras que antes eram passadas de geração a geração.

Isso vale para o setor do luxo, mas também para aquele de largo consumo. Padeiros, confeiteiros, marceneiros e costureiros são profissões que estão desaparecendo com um ritmo vertiginoso na Itália.

lojas na Itália

Roma é mágica porque, passeando pelas ruas estreitas de seu centro histórico, cruzamos com restauradores de móveis, confeitarias que exalam aroma de baunilha no ar, alfaiatarias que expõem em suas vitrines roupas eclesiásticas e “botteghe” que ainda realizam sapatos sob medida.

Na “Calzature Marini”, por exemplo, desde 1889 os artesãos empregam cerca de 40 horas para confecionar artesanalmente um par de sapatos. Por isso conquistou clientes importantes como Roberto de Niro e a rainha Elizabeth II.

Na capital também encontra-se o sapateiro, de origem peruana (ARELLANO), que realizou sapatos para o Papa Ratzinger e outros artesãos que garantem essa atmosfera única a Roma.

Muitos deles abandonaram o centro histórico e seus laboratórios foram substituídos por garagens ou agências de bancos.

Vocês conseguem imaginar uma Itália sem tudo isso?

Nas imagens:

Rinomata Rameria Mazzetti, Montepulciano

Calzature Marini, Roma

La Bottega del Marmoraro, Roma

Bae Ceramiche, Montepulciano

Ceramiche Il Volo, Sarteano (Província de Siena)

 

This article has 1 comment

  1. Mercado Viagens

    Uma das principais características da Itália é justamente evitar os modismos e manter-se tradicional, como não poderia deixar de ser na Cidade Eterna. Em Roma os Italianos vestem sapatos de couro, não são aficionados por shoppings, não são excessivamente comerciais e sempre exigem educação e tratamento humano. Não entre em uma loja tradicional sem cumprimentar o vendedor e pelo menos tentar conversar um pouco antes de fazer seu pedido! Jóia esse post, vamos visitar mais vezes e divulgar a nossos clientes!

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