Entre a lã e a terra: Brunello Cucinelli, Solomeo e o capitalismo que tenta salvar a própria alma
O novo filme de Giuseppe Tornatore sobre Brunello Cucinelli (Brunello Cucinelli, il visionario gentile) que acaba de chegar aos cinemas italianos é como uma janela aberta para uma utopia discreta: o vilarejo de Solomeo, na Úmbria, apresentado como o cenário vivo de um capitalismo que insiste em se imaginar humano. Parecem duas palavras inconciliáveis?
Talvez o nome Cucinelli não soe familiar para muitos brasileiros. É um dos empresários mais admirados na Itália e criou um império cotado na bolsa de valores. Por isso, muitas vezes é etiquetado como “o bilionário do cashmere”.
A riqueza é apenas uma das facetas mais evidentes de sua personalidade publica. Aquela mais discreta pode ser descrita com uma frase que ele mesmo declara ser o leit motiv de sua empresa: “a beleza salvará o mundo”, atribuída a Dostoievski.
Na tela, Cucinelli aparece como um self made man, artesão de si mesmo — e de uma narrativa em que a moda serve menos para vestir corpos e mais para resgatar uma ética antiga, quase pastoral.
Mas que tipo de capitalismo é esse que reivindica para si um verniz filosófico? E, sobretudo: o que essa história diz sobre um setor — o da lã e do cashmere — onde convivem modelos opostos de relação com território, gente e poder?
É aqui que entra o contraste incômodo: enquanto Cucinelli filma a própria parábola de um capitalismo com alma, na Patagônia ressurge a controvérsia envolvendo outra família de empreendedores italianos nas terras reivindicadas por comunidades Mapuche.
Solomeo, sua experiência pessoal
Quando visitei Solomeo, ano passado, o que mais me chamou atenção não foi o cashmere, mas o silêncio.
O vilarejo remete a um gracioso cenário turístico. Os edifícios restaurados têm proporções quase renascentistas, como se a beleza — não a eficiência — comandasse as decisões.
E o mais impressionante: ninguém ali fala de “funcionários”. Fala-se de colaboradores, mas não como jargão corporativo; é quase literal. A escola de artesãos, os cursos de filosofia, o teatro, a biblioteca — tudo aquilo não parece construído para a comunidade, mas com a comunidade.
A vila não é vitrine de marca: é um belo território vivido. É uma aposta na ideia de que trabalho e cultura podem dividir o mesmo teto.
Nesse microcosmo, a moda não nasce de uma cadeia de produção: nasce de um ecossistema afetivo que no film merce trilha sonora de Nicola Piovani.
Brunello Cucinelli se apresenta como alguém que tenta reconfigurar o papel da empresa na sociedade — daí o seu “capitalismo humanístico”. A proposta parece simples: dignidade para quem trabalha, beleza para quem consome, responsabilidade com o território, e um tipo de prosperidade que não se mede só em margem de lucro.
Cucinelli fala da vida no campo, da infância em que viu o pai ser humilhado no trabalho, do desejo de criar um ambiente no qual ninguém precise se curvar. É uma ética artesanal: lenta, local, comunitária. A empresa cresce, sim, mas afirma crescer como uma vila que expande o muro apenas quando tem quem viva dentro dele.
E tudo ali gira em torno de Solomeo — a vila é o coração narrativo e moral do projeto. É o antídoto contra o anonimato industrial.
Solomeo como metáfora e também limite
Solomeo é real, mas também é metáfora. É o símbolo de como o capitalismo gostaria de ser visto — humano, culto, belo. E, ao mesmo tempo, é prova de que esse modelo só funciona onde existe uma combinação perfeita de circunstâncias: território pequeno, comunidade coesa, liderança carismática, produtos de altíssimo valor agregado.
Enquanto isso, a controvérsia Mapuche lembra que, na maior parte do mundo, a moda ainda depende de processos que não cabem num filme de Tornatore.
O ensaio, então, não precisa cair na armadilha de canonizar Cucinelli. Pelo contrário: o interessante é mostrar como o seu projeto é inspirador e insuficiente — porque não dá conta das desigualdades estruturais que o próprio mercado alimenta.
Visitar Solomeo ajuda a entender que Cucinelli, ao menos naquele espaço, realmente conseguiu criar um ambiente no qual trabalho, cultura e comunidade se reforçam. É bonito, é coerente, e talvez seja mesmo um modelo possível — se o mundo inteiro pudesse ser uma pequena vila na Úmbria.
Mas não é.E é justamente por isso que precisamos olhar para o outro lado da lã — para onde a terra vira disputa e o território vira propriedade.
Entre o cashmere que nasce em Solomeo e a lã que sai da Patagônia, há mais do que distância geográfica. Há duas visões de humanidade, duas ideias de progresso, duas éticas econômicas.
A moda, no fim das contas, está sempre contando histórias. A pergunta é: quem a história beneficia — e quem ela deixa de fora?








