Sexto Sentido

Festas de fim de ano na Itália. O Natal “dei nonni”

A quais valores nos apegamos em tempos de crise econômica, decadência verbal e lo moral, de tensões estruturais e turbulência geopolítica? A família ainda é a única instituição capaz de agregar indivíduos, criando a tão almejada coesão social?

A Itália é o país da longevidade e da baixa natalidade. A nação na qual os avós ainda são um alicerce e ousaria dizer um “bene rifugio”, expressão utilizada em italiano para indicar um investimento que mantém ou aumenta o seu valor durante períodos de instabilidade, inflação e crise do mercado financeiro.

São eles o pilastro de muitos núcleos familiares, o braço direito da geração de jovens precários ou de casais que apesar de trabalharem integram as estatísticas sobre os “working poor”. Segundo os dados ISTAT, 8,5 milhões de italianos enfrentam instabilidade econômica mesmo tendo um emprego.

Essas últimas semanas, notei que nos comerciais de Natal veiculados na TV por diversas marcas famosas os protagonistas são os avós.

Tem a netinha criança que entrega o bombom ao avô. A jovem que lembra quando preparava o molho de tomates com a avó. A menina que sugere uma marca de celular para a avó ou entrega panettone para o avô. O garoto que com a cumplicidade da funcionária dos correios despacha uma cartinha e um pacote para o “nonno Pino” que vive na “Rua das Nuvens”.

A trilha sonora é a belíssima canção “La sera dei miriacoli”, de Lucio Dalla.

Na era do etarismo, a princípio diria que é um sinal positivo. Um indício de uma colaboração entre gerações, uma homenagem a figuras que além de auxílio econômico muitas vezes ajudam os netos na lição de casa, se substituem a babás ou a creches, já que as vagas são limitadas en muitas cidades italianas.

Por outro lado, não posso deixar de notar o quanto o papel dos avós tem sido indispensável para compensar um welfare state, da ausência de políticas relevantes a favor de jovens famílias e da presença feminina no mercado de trabalho.

Como canta Dalla, “Si muove la città. Con le piazze e i giardini e la gente nei bar”. A cidade se move, com as praças, os jardins e as pessoas nos bares”.

Gente de carne e osso que depois do período de festas de Natal provavelmente não será mais protagonista de comerciais de TV, mas continuará aguardando um milagre e estendendo a mão para levar o neto para a casa.

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