Fragmentos de conversa no ar. Memórias de família.
Fragmentos de conversa no ar que revelam partes de um mundo interior.
Caminhando pela cidade, ao cruzar com desconhecidos que conversam no telefone, capto frases avulsas. Um senhor empurra uma idosa na cadeira de rodas dizendo “contratei ela para uma semana de teste”. Um casal de meia idade aproxima o ouvido do aparelho e pergunta “como está o tempo por aí?”. Uma senhora comenta: “ela disse que queria preparar gnocchi e eu disse que não precisava”. Um homem com passos apressados repete “eu vou pedir demissão semana que vem”.
O poder evocativo das palavras me faz imaginar porções de vida desses estranhos e redescobrir algo que, indiretamente, minha avó materna me ensinou: cada um de nós carrega dentro de si um universo que os outros só enxergam parcialmente e que não poderia ser traduzido em palavras nem com o auxílio de um dicionário inteiro.
Minha avó, por exemplo, não cabe em um único vocábulo. Não era de toques, mas ao mesmo tempo era um afago para os males alheios e, sem saber, autora de diversas delicadezas.
Filha de imigrantes italianos, mantinha em casa uma espécie de altar que causava em mim e em meus primos, ainda crianças, atração e sujeição.
Crescida no Brasil, terra de bricolagem religioso, abria as portas de seu lar. Ouvia e acolhia pessoas que esperavam curar as feridas do corpo e da alma com arruda e mantras que ecoam longínquos minha memória.
Na última vez que estive no Brasil, visitando a Pinacoteca de São Paulo, me deparo com uma parede repleta de palavras de origem tupi-guarani. Uma delas era “patuá”. Imediatamente, rebobino mentalmente o filme da minha infância. Vejo minha avó costurando com linha e agulha um saquinho que me acompanhará na temida prova de matemática.
Nunca soube o que continha, mas hoje me dou conta de que aquele detalhe não era importante. O que contava era o gesto, minucioso. O tempo dedicado. O importar-se com alguém, transferindo para um pequeno pedaço de tecido o maior pode de todos. O amor.
Sinto saudades de enxergá-la do outro lado do vidro da varanda de inverno de sua última casa. Do feijão cozido com uma folha de manjericão. Do leite de saquinho que buscava para ela na padaria. Do cheiro do creme hidrante de aveia que tinha no armário do banheiro. Do ranger das portas do guarda-roupa de madeira maciça que herdamos por um tempo. Do pedido de retalhos que fazia à vizinha, costureira, para que pudéssemos transformá-los em inéditos vestidos de bonecas. Tudo isso não cabe em uma palavra.
A última imagem que tenho em mente é a gente caminhando na calçada, com dificuldade, com a ajuda de uma bengala, para tentar chegar a pé a nossa casa, em um domingo.
Vou fingir que estou no celular e perguntar para ela o que prefere para o almoço. E se alguém ouvir esse fragmento de conversa dará a ela, por alguns segundos, um novo sopro de vida.


O sentimento pega carona das mais diversas formas, né? Pensamentos palavras e atitudes, emojis e patuás…
Que nossos “patuás” se encham de amor.
Pois é, quando a gente menos espera esses fragmentos de sentimento vim à tona. 🙂