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A Itália entre o mito e o movimento

Enquanto milhões de descendentes de italianos sonham em viver no Belpaese, mais de 650 mil jovens italianos deixaram o país. As novas gerações de italianinhos preferem o sushi à pizza e enquanto isso se exalta no exterior a conquista do título de patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco obtida pela cozinha italiana. Existem duas Itálias que caminham em direções opostas e imaginam futuros diferentes?

Para muitos descendentes de italianos que vivem fora da Itália ou para os chamados “italofili” – cidadãos que apesar de não terem descendência e não serem parte da diáspora italiana amam a cultura tricolor – o país existe mais como imagem do que como experiência.  Uma imagem construída por fotografias antigas, histórias de família, músicas que fizeram sucesso na década de 60, pratos repetidos come um ritual.

A Itália, nesse imaginário coletivo transmitido de geração a geração, é um lugar onde aos domingos se prepara lasanha, onde o tempo é mais lento, onde a comida ainda organiza a vida social.

Mas a Itália real — aquela que se vive hoje — é mais dinâmica do que aquela que a memória sugere. É um país em movimento, às vezes em fuga, às vezes em contradição.

Italianos no exterior

Uma notícia aparentemente banal ajuda a entender essa mudança: cada vez mais crianças italianas pedem sushi para o jantar. Não como exceção, mas como hábito. A cozinha italiana conquistou recentemente o título de “patrimônio imaterial da humanidade” pela Unesco, mas crianças e jovens italianos parecem contradizer a preferência pelos sabores made in Italy.

O sushi, que até poucos anos atrás era um símbolo de exotismo urbano, tornou-se cotidiano, normalizado, inclusive impactando o orçamento das famílias. Entre 23 países europeus, a Itália ocupa o segundo lugar no ranking entre aqueles que utilizam plataformas de delivery para pedir a entrega se sushi em casa. O primeiro é a Espanha.

Não se trata apenas de uma mudança de gosto alimentar. É o sinal de uma geração que cresceu sem a obrigação de reproduzir a tradição, que vive em um espaço cultural globalizado, onde identidade não é repetição, mas escolha.

Enquanto isso, os jovens adultos italianos fazem outra escolha, muito menos leve: partir.

Italianos no exterior

Segundo os dados do CNEL, entre 2011 e 2024, 650 mil italianos com idade entre 18 e 34 anos deixaram o país. Não por falta de afeto, mas por excesso de realismo. Salários baixos, carreiras instáveis que dificilmente reconhecem a meritocracia como um valor e pouca mobilidade social. O resultado é a perda de um imenso capital intelectual humano e um dano para a coletividade.

Estima-se que 42,1% daqueles que deixam a Itália possuem formação universitária e que em um país como a Alemanha seu salário é, pasmem, 80% maior do que aquele que ganharia na Itália. Na França, a diferença salarial seria de 30%.

A decisão de emigrar não nasce de um sonho romântico, mas de um cálculo concreto. A Itália continua sendo amada, mas já não é vista como um lugar onde se pode construir o futuro com segurança.

E aqui surge a fratura mais interessante.

Enquanto jovens italianos saem em busca de oportunidades em outros países europeus, milhares de brasileiros olham para a Itália como destino possível, desejável, até promissor. Projetos de incentivo à migração interna, pensados para repovoar cidades médias e pequenas, recebem uma avalanche de pedidos vindos do Brasil. Pessoas dispostas a mudar de continente para viver em lugares que, para muitos italianos, parecem marginalizados ou sem futuro. Uma notícia recente envolvendo a cidade de Varese, no norte do país, teve bastante repercussão por aqui. A cidade oferecia 2 mil euros para cidadãos que transferissem a residência em seu território e a inciativa recebeu amis de 3 mil pedidos por parte de brasileiros.

Essa inversão revela algo essencial: a Itália é percebida de formas radicalmente diferentes dependendo do ponto de observação. Para quem vive dentro, ela é um sistema rígido, lento, difícil de atravessar. Para quem olha de fora, especialmente de contextos marcados por instabilidade, violência urbana ou desigualdade extrema, a Itália ainda representa ordem, serviços públicos, qualidade de vida, pertencimento europeu.

Não se trata de quem está certo ou errado. Trata-se de perspectivas.

A Itália idealizada pelos descendentes no exterior — feita de comida boa, família reunida e beleza por todos os lados — nunca existiu exatamente nesses padrões imutáveis. E a Itália real, feita de contratos temporários, migração juvenil e sushi às quartas-feiras, não é menos italiana por isso. É apenas mais complexa.

Talvez o ponto não seja tentar reconciliar mito e realidade, mas aceitar que a Itália contemporânea vive nesse espaço intermediário: um país que perde seus jovens e atrai outros, que abandona tradições enquanto as exporta como identidade cultural, que continua sendo sonhado exatamente porque já não é simples.

No fundo, a pergunta não é por que os italianos vão embora enquanto os brasileiros querem chegar. A pergunta é o que cada um está procurando quando pensa na palavra “Itália”.

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