Na periferia de Roma, a casa onde Pasolini ainda nos interpela
No bairro de Rebibbia, longe dos cartões-postais de Roma e nos arredores de uma penitenciária, um pequeno apartamento voltou recentemente a abrir as portas — não como relíquia, mas como espaço para uma memória viva, que ainda pulsa.
É a Casa Pasolini, apartamento onde o escritor, cineasta e intelectual Pier Paolo Pasolini viveu com a mãe na década de 50, mais precisamente entre 1951 e 1954, anos decisivos para a formação de uma das vozes mais inquietas do século XX.
Depois de anos abandonado e de ter sido colocado à venda, em um leilão, o imóvel foi comprado pelo produtor cinematográfico Pietro Valsecchi, que depois de reformá-lo tentando preservar suas características originais o doou ao Estado.
A inauguração do espaço, mais de meio século após sua morte, poderia ser apenas um gesto comemorativo. Mas há algo de mais urgente nesse retorno: trazer Pasolini de volta ao lugar onde ele descobriu aquilo que chamaria de o “centro do mundo” — não o centro monumental de Roma, mas suas margens.
Foi nas periferias, entre jovens das borgate, que Pasolini encontrou matéria viva para sua literatura e seu pensamento. Ali nasceram Ragazzi di vita e uma visão radical da sociedade italiana, construída a partir dos excluídos, dos invisíveis, dos que ainda não haviam sido absorvidos pelo consumo e pela padronização cultural.
Ele afirmava que amava as periferias porque nelas encontrava a humanidade. Hoje, ao atravessar os mesmos espaços urbanos — agora transformados, mas ainda marcados por desigualdades — a sensação é desconcertante: Pasolini era um visionário e o seu pensamento é mais do que atual.
Sua crítica ao consumismo, por exemplo, soa quase premonitória. Décadas antes da internet, das redes sociais e do risco predatório da inteligência artificial, ele já denunciava uma forma de poder mais eficaz que a repressão: a homogeneização dos comportamentos, dos desejos, das linguagens. O que ele chamava de “mutação antropológica” parece ter se aprofundado num mundo governado por algoritmos e imagens.
Mas talvez seja na relação com o poder que sua atualidade mais incomoda. Pasolini recusava alinhamentos fáceis. Criticava tanto a direita quanto a esquerda, desconfiava do agir das instituições e dos meios de comunicação (sua obra inacabada, Petrolio fez o poder tremer), e insistia em uma posição solitária — por isso mesmo difícil de neutralizar. Sua voz não cabe em slogans, e talvez por isso continue perturbadora.
A Casa Pasolini, nesse contexto, não é apenas um espaço de memória. É um deslocamento simbólico: levar o olhar novamente à periferia, não como problema a ser resolvido, mas como chave para entender o presente. Em tempos de novas marginalidades — marcadas por migrações, desigualdades e exclusões persistentes — a geografia pasoliniana volta a fazer sentido.
Transformar esse apartamento em espaço público é também um gesto político. O que era íntimo se torna coletivo; o que era passado se reativa como pergunta. Não se trata de preservar um autor, mas de recolocá-lo em circulação.
Basta passear pelos arredores do imóvel para se dar conta do orgulho que os moradores do bairro têm ao evocar o nome de Pasolini. Em uma pequena praça ao lado de uma igreja modesta, uma placa lembra que o intelectual viveu naquela “borgata”.
Na casa, além das paredes repletas de fotografias dos momentos mais significativos de sua vida, é possível consultar os livros do autor e reviver, com a imaginação, a atmosfera de sua rotina dos anos 50.
No aniversário de seu nascimento (nasceu em Bolonha em 5 de março de 1922), a reabertura dessa casa sugere menos uma celebração do que um confronto.
A reabertura da Casa Pasolini não encerra uma história — reabre uma questão. Em que medida as transformações que ele denunciava se completaram? E até que ponto ainda somos capazes de reconhecê-las? Voltar a Pasolini, hoje, talvez não seja um exercício de memória, mas de lucidez.








