Roma. Percorrer ruas que não levam a lugar nenhum
Existe um turismo regulado por regras não escritas.
A regra do tempo cronometrado. A do roteiro obrigatório. A de provar que se esteve ali — de preferência com uma foto postada no mesmo dia.
Viajar, hoje, é cumprir etapas: comparecer diante de monumentos famosos, enfrentar filas para restaurantes instagramáveis, consumir pratos icônicos pensados como experiências estético-gastronômicas para paladares de passagem. Tudo precisa ser visto, vivido, registrado e compartilhado.
O turista contemporâneo tornou-se sinônimo de utilidade — quase sempre econômica. Cada deslocamento coincide com um ingresso comprado, um prato consumido, uma obra-prima contemplada ao mesmo tempo por centenas de outros olhares. Ou com a participação em experiências imersivas, culturais ou religiosas, que às vezes já nem pedem dinheiro em espécie, mas um cartão para uma oferta “voluntária” ou para iluminar um quadro famoso por alguns segundos.
Nesse contexto, caminhar deixou de ser um fim. Tornou-se apenas um meio. Caminha-se para chegar, para cumprir, para “cobrir” o maior número possível de pontos.
Mas gosto de pensar que existe uma alternativa a esse modo de atravessar as cidades.
Ela passa por ruas que não “servem” para nada específico. Ruas que não levam a uma praça icônica, não se abrem de repente para uma vista memorável, não prometem nada no final. Ruas que existem sem pedir atenção — e talvez por isso a mereçam por inteiro.
São como um parêntese dentro de um texto ou uma frase secundária na sintaxe da cidade. Se você caminha rápido demais, elas desaparecem. Se procura algo preciso, decepcionam. Mas se diminui o passo, começam a falar.
Em Roma, caminhar devagar por ruas que não aparecem nos principais guias turísticos é quase um gesto político. Elas não convidam a comprar nada, não indicam onde olhar, não sugerem o que fotografar. Deixam o caminhar entregue aos muros, aos portões, aos cortili, às janelas semiabertas, aos sons baixos de uma cidade que não precisa ser explicada — apenas sentida.
Caminhar devagar, numa cidade como Roma, é uma forma de resistência gentil. Resistência à urgência de ver tudo, à obrigação de “fazer” a cidade como quem cumpre uma tarefa.
E, enquanto se caminha, algo curioso acontece: começamos a notar o que normalmente fica fora dos guias. As rachaduras no reboco, as campainhas gastas, as placas que ninguém lê mais. Não são detalhes pitorescos. São marcas de duração. Indícios de uma cidade pensada não para ser visitada, mas para ser habitada.
Numa Roma frequentemente obrigada a encenar a si mesma, essas ruas permanecem neutras. Não tentam agradar. Não performam beleza. Não são instagramáveis no sentido clássico — e é justamente por isso que conservam uma dignidade rara.
Ruas secundárias não levam a lugar nenhum porque não precisam levar. Existem como espaço intermediário, como tempo suspenso, como pausa entre um “antes” e um “depois”.
Não são atração.
Não são conteúdo.
Não são destino.
São ruas que não levam a lugar nenhum — e que, por isso mesmo, ensinam a estar, em vez de a chegar.





Existe um canal no YT chamado Baka Gaijin e o hoster gosta de andar pelas ruas molhadas de Tóquio durante ou após as chuvas e entrar nos becos. A esses becos (Yokocho) ele chamou de não-lugares, pois são o que sobrou do aproveitamento da paisagem urbana, mas acabaram se tornando, inclusive, pontos muito visitados lá. Os não-lugares, lugares ignorados, não visitados e escondidos talvez guardem até mais de verdade, já que é a cidade sem maquiagem ou, quem sabe, até suas víceras…
Puxa que interessante Marcelo! Vou dar uma olhada no Canal pois fiquei curiosa! Obrigada pela dica!