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Val d’Orcia de uma outra perspectiva, além do modelo “Barbie”

Sinto dizer, mas você corre o risco de ser só mais um nas estatísticas.

Somente nesse verão (de junho a setembro), a Itália estima receber 35,7 milhões de estrangeiros, uma densidade que corresponde à metade da população do país.

Milhões de turistas visitam a Itália todos os anos, mas quantos realmente VIVEM a experiência?

Acabo de ler que em agosto começam as gravações de “Emily em Paris”, que depois de Roma dessa vez chega em Veneza.

A série faz sucesso entre os estrangeiros reproduzindo os clássicos clichês italianos.

Vale a leveza, a descontração de um momento de lazer no sofá, mas na minha modesta opinião não deve ser seguido como possível modelo, guia de viagens.

O risco é que protagonista se torne uma espécie de Barbie em diversas versões. Barbie com o “gelato” na mão, a bordo de uma Vespa, em Barbie fazendo pose em cenários épicos.

O Val’Orcia, na Toscana, é uma das zonas que mais sofreu com os reflexos do overtourism. Sua vocação rural corre o risco de ser substituída por serviços turísticos que excluem da rotina os seus residentes. Um fenômeno que o antropólogo francês Marc Augé definiu como “espaços da provisoriedade”, lugares onde nem relações sociais, nem histórias compartilhadas, nem sinais de pertencimento coletivo podem ser captados”.

Ele descreveu lugares sem identidade própria, desconectados de seu contexto social e histórico e, portanto, altamente padronizados. Para resumir, o risco é que metas como essa possam se transformar em lugares como aeroportos, supermercados, estacionamentos e resorts.

Você, como turista, pode contribuir para que cidades italianas não sejam somente cenários para turistas. O seu poder é a capacidade de escolha.

Na Toscana, por exemplo, não se limite às vinícolas famosas. Procure aquela cantina familiar. Aprenda sobre terroir e porque determinado vinho tem um sabor específico.

Opte pela osteria tradicional, pelas lojas de artesãos em vez de temporary shops.  Tente um passeio a cavalo, em ritmo slow. Pergunte por que existe uma rivalidade histórica entre certas cidades toscanas.

Entenda por que os ciprestes estão plantados exatamente ali (marcam propriedades e protegem do vento). Pare nas cidadezinhas medievais que não estão no roteiro do Instagram. Converse com os locais, mesmo que seja com gestos. Entenda que para respeitar e tutelar aquela paisagem, a agricultura deve respeitar o ritmo da natureza e por isso não poderá encontrar tomates frescos no inverno ou o queijo pecorino com leite de ovelhas o ano inteiro.

A Itália não precisa de mais turistas. Ela precisa de mais pessoas que a respeitem, que entendam sua alma e que deixem um pedacinho do coração aqui.

Seja memorável. Não estatística.

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