A Itália vivida e a Itália narrada. Cidadania por descendência e a nova mediação brasileira do país
Como a cidadania italiana por descendência está mudando a forma como brasileiros explicam a Itália — e participam politicamente do Brasil aravés do voto transnacional
Ultimamente tenho observado um fenômeno emergente na minha timeline.
Quase todos os dias surgem novos perfis de brasileiros recém-chegados à Itália que começam rapidamente a explicar o país para outros brasileiros que pensam em trilhar o mesmo caminho. Criam guias, mapas de sobrevivência burocrática, interpretações culturais. Tornam-se os primeiros mediadores de uma Itália na qual ainda estão aprendendo a habitar.
Não escrevo isso com ironia. Escrevo porque me fez pensar no tempo.
Quando cheguei à Itália, há 25 anos, a narrativa brasileira sobre o país nas redes era embrionária. Na verdade, não existiam redes. Existia apenas a experiência direta — muitas vezes solitária — de atravessá-lo com muitos erros e poucos acertos.
Em Roma, especificamente, um dos principais interlocutores dos imigrantes era a Questura (delegacia) situada na Via Genova, arredores da Via Nazionale. Conseguir um “kit permesso di soggiorno” em papel significava enfrentar horas de fila nos correios.
Cada vez que uma nova lei em matéria de imigração entrava em vigor, era necessário ler e decifrar cada um de seus artigos e em suas entrelinhas para entender seus próprios deveres e tentar tutelar seus próprios direitos.
Os códigos culturais, aquelas regrinhas não ditas que garantem uma convivência pacífica, não eram temas de Reels no Instagram, mas aprendidas na marra.
Para cozinhar receitas italianas, a minha referência era o site de uma famosa marca de macarrão.
A socialização entre migrantes ainda passava por espaços físicos, por encontros organizados, por redes discretas e quase invisíveis de apoio cotidiano. Encontrei brasileiros pessoalmente, não em grupos de plataforma e algumas dessas pessoas ainda são especiais e fazem parte da minha vida.
A Itália não era um conteúdo, um “brand” de luxo ou sinônimo de status.
Era a Itália que ainda vivia as consequências profundas da operação Mani Pulite, que tinha desmontado a arquitetura política da Primeira República e alterado a relação entre cidadãos, partidos e instituições.
Era uma Itália já profundamente transformada pela televisão privada, que não mudou apenas a programação: mudou a linguagem pública, o imaginário coletivo e a forma de fazer política.
Era também uma Itália em que a presença da Igreja continuava estruturando silenciosamente muitos espaços de encontro social, especialmente para quem chegava de fora. Não apenas como experiência religiosa.
Era a Itália que ainda carregava a memória recente dos anos de violência política das décadas anteriores, principalmente aquela de 70. Não como capítulo de livro de história, mas como clima transmitido nas conversas, nas cautelas e nas referências que apareciam nos jornais e nos telejornais da noite.
Era também a Itália em que a imigração ainda estava sendo definida como fenômeno social. A Lei Bossi-Fini não era uma referência histórica: era uma estrutura concreta que organizava vidas reais e determinava quem podia permanecer, trabalhar, esperar.
Era a Itália que conectava à imigração à imagem impressionante do navio Vlora, que chegou ao porto de Bari com 20 mil albaneses que fugiam da crise pós comunista e que, à distância, pareciam pontinhos de uma fotografia repleta de pixels.
Naquele momento, aprender a Itália significava aprender suas camadas.
Significava entender que as diferenças entre Norte e Sul não eram apenas geográficas. Que a burocracia não era apenas ineficiência. Que a família funcionava como instituição social paralela ao Estado. Que a televisão era um ator político. Que a Igreja continuava sendo uma presença estrutural na cultura pública italiana, mesmo quando invisível.
Nada disso aparecia rapidamente. Era preciso tempo.
Talvez por isso hoje me impressione a velocidade com a qual surgem narrativas prontas e “mastigadas” sobre o país.
Não porque sejam falsas. Muitas vezes são úteis, generosas, necessárias para quem está chegando. Mas são narrativas de chegada. Narrativas de adaptação. Narrativas produzidas dentro de um tempo muito curto de convivência com uma sociedade complexa e historicamente estratificada.
Quem chega hoje encontra uma Itália já narrada.
Quem chegou antes precisou atravessar várias Itálias diferentes até entender que o país não é apenas um lugar onde se vive — é um processo histórico em andamento.
Talvez uma parte dessa transformação esteja ligada a um outro fenômeno silencioso, mas profundo: o crescimento acelerado do número de cidadãos italianos nascidos fora da Itália.
Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística italiano (ISTAT), em 2024 quase 70 mil brasileiros tiveram a cidadania italiana reconhecida por direito de sangue — mais de 60% de todas as cidadanias concedidas a descendentes residentes no exterior naquele ano. Ao mesmo tempo, cerca de 37% dos novos cidadãos italianos contemporâneos vivem fora da Itália, principalmente na América do Sul.
Isso significa que uma parte significativa dos novos cidadãos italianos de hoje não nasceu na Itália, não foi socializada nas suas instituições e não atravessou as suas transformações políticas das últimas décadas.
São cidadãos por herança. Não por experiência histórica.
Esse dado não diminui a legitimidade jurídica da cidadania. Mas muda profundamente o significado sociológico dela.
Porque a cidadania não é apenas um vínculo administrativo. É também uma relação com a memória institucional de um país.
Talvez seja nesse ponto que o resultado do último plebiscito brasileiro sobre a reforma da magistratura, entre eleitores residentes na Itália, se torne particularmente interessante de observar.
Uma parte expressiva dos votos favoráveis ao “sim” veio justamente deste território (No Brasil, 71,5% votaram a favor), enquanto na Itália a maioria da população se exprimiu contrária à reforma. Na Venezuela e no Equador os percentuais a favor do “sim” foram, respectivamente, de 87,4% e 81,8%. Ao contrário, Dinamarca (79%) e Suécia (74,9%) foram as nações com maior percentual de votos de italianos contrários à reforma.
Não se trata de julgar escolhas individuais e democráticas, mas de perguntar de que Itália partem as referências institucionais desses novos cidadãos quando participam do debate político brasileiro a partir daqui.
Da Itália vivida ou da Itália imaginada?
Entre as duas existe uma diferença importante: uma é construída pela experiência histórica. A outra, muitas vezes, por aproximações recentes, por narrativas digitais e por uma cidadania reconhecida antes de ser realmente habitada.
Talvez seja também aqui que aparece uma nova forma contemporânea de pertencimento: uma cidadania transnacional sem memória institucional compartilhada.
E isso muda não apenas a forma como olhamos para a Itália.
Muda também a forma como participamos politicamente do Brasil ou de qualquer outra parte do mundo a partir dela.
A notícia de hoje, compartilhada pelas principais mídias italianas, é que o país enfrenta seu pior inverno demográfico, com um mínimo histórico de nascimentos. Um em cada quatro italianos tem mais de 65 anos. E esse fato deveria ser um impulso a rever futuras políticas públicas em favor de famílias e a projetar um novo conceito- plural e consistente – de cidadania real e de participação na vida da República italiana.
Porque a cidadania não é apenas um vínculo administrativo. É também uma relação com a memória institucional de um país. Por isso acredito que o grande desafio das novas cidadanias transnacionais não seja apenas reconhecer pertencimentos herdados, mas construir pertencimentos vividos
