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Accoglienti x Respingenti. Quando as cidades acolhem quem chega, mas expulsam quem fica

Há anos discutimos os efeitos do turismo de massa e, como em tantos outros temas do nosso tempo, também aqui se desenha uma polarização quase inevitável: de um lado, quem reivindica o direito de visitar os cartões-postais de uma cidade; do outro, quem prefere rotas marginais, trilhas discretas, percursos mais próximos da vida local.

Não há hierarquia entre esses dois movimentos — ambos revelam maneiras legítimas de habitar o mundo. Mas, ao observar a realidade italiana, algumas fissuras começam a aparecer.

Nos últimos anos, cidades como Polignano a Mare e Orvieto figuraram entre as mais acolhedoras do planeta, segundo o portal Booking.com.

Um estudo da Confcommercio em parceria com a Confturismo confirma a impressão: para quem chega, a Itália continua sendo um país accogliente. A hospitalidade está na mesa posta, no humor espontâneo, na paisagem que parece sempre preparada para receber.

Mas qual é a percepção de quem vive aqui todos os dias?

Um famoso cantor toscano passou a chamar sua cidade natal de “Florence”, em inglês, como se precisasse sublinhar o quanto Firenze se tornou um território moldado para quem visita — não para quem permanece.

Milão, Roma, Bolonha e Veneza seguem o mesmo roteiro: centros históricos ocupados por affitti brevi, apartamentos antes residenciais convertidos em hospedagens temporárias. Para os moradores, essas cidades começam a adquirir um caráter respingente: expulsam sem violência, afastam sem alarde, simplesmente tornando a vida cotidiana inviável.

Essa transformação — lenta, silenciosa — ecoa o alerta de David Harvey, quando escreve que “o direito à cidade não é apenas o direito de acessar o que já existe, mas o direito de transformá-la segundo as necessidades coletivas”. Quando a lógica do turismo temporário prevalece sobre a vida permanente, esse direito se enfraquece: a cidade deixa de ser um bem comum e passa a funcionar como um produto.

O resultado é um deslocamento contínuo. Famílias empurradas para bairros-dormitórios ou cidades satélites, onde os aluguéis são mais suportáveis, mas o resto não acompanha: faltam transportes eficientes, comércio de bairro, serviços de saúde, escolas acessíveis. É como se a vida real se retirasse para as margens.

Ao mesmo tempo, o comércio das áreas centrais se reorganiza segundo o desejo do turista — não mais do morador. Onde havia alimentari, mercearias de esquina e lojas que serviam à vida comum, surgem vitrines de souvenir e cardápios traduzidos em cinco línguas. Sharon Zukin, estudiosa das dinâmicas urbanas e da “gentrificação cultural”, descreve esse processo como a substituição de um ecossistema vivo por um cenário cuidadosamente curado — esteticamente vibrante, mas socialmente empobrecido.

O governo discute possíveis soluções, entre elas o aumento dos impostos para proprietários que alugam imóveis por plataformas como Airbnb. São tentativas de reequilibrar um jogo que já se inclina há anos.

Para quem está apenas de passagem, tudo isso permanece invisível. A cidade mostra sua melhor face ao visitante — e não há nada de errado nisso. Mas basta permanecer um pouco mais, escutar quem mora, atravessar as ruas quando o turismo adormece, para perceber que a hospitalidade também tem suas fraturas. E que, entre ser accogliente e tornar-se respingente, muitas cidades italianas vivem hoje nesse espaço delicado, onde o encanto convive com uma espécie de exaustão silenciosa.

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