
Neve nas cidades italianas e aquilo que realmente importa
Você deve ter visto imagens da neve nas principais cidades italianas. Nos últimos dias de festas, e no período em que as estações de esqui permanecem fechadas para conter ao avanço da pandemia, o inverno italiano está dando o melhor de si.
De norte a sul, muitos italianos acordaram com uma brusca queda das temperaturas e uma intensa nevasca.
Em muitas regiões do país as cidades amanheceram branquinhas e nos arredores de Asiago (Vicenza), o termômetro chegou a marcar – 41,8 graus.
Em tempos normais, muitas famílias passariam o 31 de dezembro em zonas montanhosas, aproveitando a chamada settimana bianca, uma semana de férias para curtir a neve.
Na TV, as protagonistas seriam cenas de aeroportos e rodovias lotadas e muitos de nós já teriam colocado no bagageiro as correntes de neve úteis para o próprio veículo.
Em 2020 é diferente. O governo nacional impôs regras rigorosas que restringem a circulação até mesmo dentro da própria região de residência.
De 31 de dezembro até o próximo 3 de janeiro e também nos dias 5 e 6, a Itália é considerada zona rossa (zona vermelha) e sair de casa só é consentido em alguns casos e levando consigo uma declaração que justifique o deslocamento. Até o dia 6 de janeiro, também é válido o toque de recolher e não é permitido circular das 22h até às 5h da manhã.
Por enquanto, ainda não nevou na cidade de Roma, mas na província e em outras cidades da região do Lazio (Lácio) sim e isso só aumenta a vontade de voltar a viajar para contemplar espetáculos desse tipo.
Pequenos vilarejos como Carpineto Romano, que fica cerca de 70 quilômetros da capital, é um daqueles cujas paisagens se transformam magicamente durante o inverno e uma das metas frequentadas por romanos que amam a natureza.
Circundado pela cadeia montanhosa chamada de Monti Lepini e por seu cume mais alto, o Monte Semprevisa (1536 metros), nos últimos dias Carpineto Romano foi recoberta de neve, presenteando os seus moradores com um espetáculo emocionante.
Partindo do Pian della Faggeta, a cerca de 7 quilômetros do centro histórico de Carpineto e onde começam os percursos de trekking, um de seus principais pontos panorâmicos é o Monte Capreo (1470 metros), uma “sacada” natural com vista para os Monti Lepini onde o Papa originário da cidade, Leão XIII, colocou uma cruz de ferro durante o Jubileu de 1900.
Esses cenários foram retratados pelo amigo Fabrizio Filippi, que agradeço pela gentil concessão das imagens.
O itinerário para chegar até lá é de aproximadamente 11 quilômetros, com um desnível de 670 metros.
Nessas montanhas treinava Daniele Nardi, alpinista de fama mundial que conquistou, entre outros, o pico do Everest e do K2 sem o auxílio de oxigênio e que faleceu prematuramente enquanto escalava o Nanga Parabat, no Paquistão.
Em sua homenagem um dos percursos que leva até o Monte Semprevisa e o seu cume foram batizados com o seu nome. Nardi nasceu na cidade de Sezze, plana e sem nenhuma vocação para o alpinismo. Entrando pela “porta dos fundos”, demonstrou que seu amor pela montanha era irrefreável e autêntico.
Os Monte Lepini atravessam as províncias de Roma, Latina e Frosinone e do alto do Monte Semprevisa é possível avistar as planícies do Agropontino, a cidade de Latina e até o litoral do Circeo.
Nesses dias de tempo suspenso e aparentemente imóvel, a neve que cobriu indistintamente os Monte Lepini foi um presente. Um presente para nos lembrar que hoje deixamos ali o eco dos nossos passos, nossas pegadas retilíneas e aparentemente profundas. Só que amanhã, cúmplice o sol ou uma nova nevasca, elas desaparecerão da superfície, deixando na terra só o que realmente importa. Silêncio e natureza.