A sociedade solitária. Do ônibus cantante à flotilla
Era uma vez a Itália dos anos 60, quando viajar significava embarcar numa sinfonia coletiva de vozes desafinadas e sanduíches recheados com bife à milanesa ou ovo cozido divididos entre desconhecidos, apesar da proibição de comer a bordo.
Uma prece e o ônibus com pessoas de meia idade partia de madrugada, para metas como santuários como aquele da Madonna del Buon Consiglio, em Genazzano, a Montagna Spaccata (Gaeta) ou até Cássia. Assim que entravam no veículo, os passageiros liam o cartaz “Non parlate al conducente” (Não falem com o motorista). Senhoras de meia idade ajustavam os cabelos em um coque bem apertado e suportado pela laca.
A viagem era como um ritual sagrado. O meio de transporte carregava não apenas corpos, mas uma liturgia social que hoje nos soa quase primitiva: a capacidade de estar juntos sem negociar os termos dessa proximidade.
No corredor central, entre poltronas de vinil rachado, circulavam as oferendas espontâneas da convivência. O mais extrovertido do grupo contava piadas ou entoava versos de canções como “Ti saluto croce santa, che portaste il Redentor” o Viva il Papa, Papa Giovanni, criando uma harmonia imperfeita, mas genuína. Ninguém consultava o Spotify. A trilha sonora da viagem nascia ali, naquele momento irrepetível, entre aquelas pessoas específicas que talvez nunca mais se encontrassem.
O tempo era coletivo. As paradas para o café ou para o uso do banheiro duravam o tempo que o grupo precisava, não o cronômetro individual de cada passageiro. Alguém sempre atrasava, e o ônibus esperava.
Também não era raro que durante a viagem os passageiros fossem expostos à venda de produtos como um conjunto de panelas “supostamente indispensáveis”. Era uma dança social onde cada um conhecia os passos sem ter aprendido a coreografia.
A geometria da solidão moderna
Hoje, numa manhã em qualquer aeroporto, observamos a coreografia da sociedade solo. Cada viajante navega por sua bolha individual, protegida por fones de ouvido que funcionam como muralhas invisíveis. O check-in acontece on-line, o embarque numa fila silenciosa onde cada um de nós consulta sua própria tela. Até a mala você pode despachar por conta própria.
Nas grandes cidades, repetimos micro rituais solitários: escutando um podcast sobre mindfulness, consultando um audiolivro de autoajuda, fazendo meditação caseira, quem sabe guiados por uma voz californiana que promete paz interior em quinze minutos.
Cada um carrega seus substitutos de convivência: o YouTube que substitui o professor presencial, a série da Netflix que ensina mais sobre relacionamentos que qualquer conversa real, o influencer que funciona como melhor amigo portátil. Construímos uma arquitetura perfeita para estar sozinhos juntos.
O laboratório flutuante
Acordei pensando nisso porque hoje partem da costa siciliana navios que participarão da Global Sumud Flotilla, que não é um cruzeiro de luxo nem um ferryboat comercial. Se trata da iniciativa internacional que desafia o bloqueio naval de Israel para levar mantimentos e ajuda humanitária à Gaza. Um forte gesto simbólico e de ativismo popular que não ultrapassa a imobilidade dos vértices políticos.
Independentemente das opiniões sobre essa iniciativa, a Flotilla também é um experimento involuntário sobre os limites da nossa capacidade de conviver. A bordo, pessoas de diferentes nacionalidades compartilham por dias um espaço restrito, revezando-se inclusive para dormir, enfrentando o mar em uma espécie de peregrinação.
A sociedade contemporânea patrocina o modelo “cada um por si”, incentivando o crescimento pessoal, os talentos individuais. Um sistema que faz a gente acreditar que estamos competindo uns com os outros e que quem produz mais, consome mais, sai na frente. A alternativa não é caminhar lado a lado. Somos a geração “do do it yourself e não do “let´s do it together”, quem sabe em espaços comuns, pensados para a coletividade.
A nossa capacidade de conviver está atrofiada. Talvez hoje sejamos sim mais pragmáticos, eficientes, e dotados de paladar mais fino. Somos sem dúvida menos ingênuos que os passageiros das excursões dos anos 60, mas também somos mais sozinhos.


O que dizer da tecnologia?🤔… e do comportamento nas interações? Perdas e ganhos, desconexão da realidade e outras tantas conexões. Eu me esforço pra ser otimista mas a falta de senso crítico é uma estrada aberta muito explorada por poderosos inescrupulosos.
Sou grato pela oportunidade ter lhe encontrado no mundo virtual mas guardo uma boa expectativa de um papo frente a frente. Fica bem! 😊
Obrigado pelo artigo, Anelise.
Bolha.
Economia da atenção.
Estar só coletivamente.
Que mais a gente vai criar par deixar de sermos coletividade, né?
Bom dia e bom Domingo, Marcelo. eu não sei os outros, mas tenho vivido com muito mal estar essa situação e fico triste ao ver que muitows não se importam com os outros….
Bom dia Roberto e grata por ter leitores como você que se importam com os outros, com a coletividade. Falta no mundo empatia, está tudo se desgregando e tenho receio que certas pautas e temas não interessem muita gente…