Do Coliseu ao Instagram: quando a Itália vira performance
Até que ponto nós, viajantes, somos cúmplices de um ecossistema que em vez de privilegiar a vida real transforma a Itália em um palco para uma plateia de turistas faminta por estereótipos?
Na frente do Coliseu, homens vestidos de gladiadores posam para a foto, antes de exigir o pagamento pela performance. As armaduras de plástico brilham sob o sol romano, as espadas de borracha tilintam num duelo improvisado. Entre uma selfie e outra, o gladiador interrompe o personagem, ajusta o capacete, checa o celular e negocia o preço. O contraste entre fantasia e realidade dura segundos, mas condensa um fenômeno mais amplo: a Itália transformada em palco, seus cidadãos em atores, e nós, visitantes, em plateia.
Fiquei pensando nisso ao ler a recente notícia sobre uma idosa de 94 anos que, na região Abruzzo, se tornou uma espécie de atração turística por vestir normalmente e todos os dias um antigo traje que remete às origens rurais dessa terra.
Essa teatralidade não nasceu ontem. Desde o Grand Tour do século XVIII, a península foi apresentada ao olhar estrangeiro como espetáculo. Jovens aristocratas britânicos buscavam nas ruínas romanas e nos ateliês de Florença um tipo de autenticidade clássica que confirmava suas fantasias sobre “a mãe da civilização europeia”. O cinema depois reforçou essas imagens e a Itália se cristalizou como performance estética.
Mas na cultura pós-moderna a escala mudou. Como observou o sociólogo John Richard Urry em The Tourist Gaze, o olhar turístico não se limita a observar; ele molda o que é mostrado.
Em Roma, gladiadores sorridentes; em Bari, mulheres amassando orecchiette em mesas de rua; em Veneza, gondoleiros que cantam ’O Sole Mio, mesmo que a canção seja napolitana e não veneziana. O que importa não é a origem, mas a capacidade de corresponder ao imaginário global da “Itália eterna”.
Décadas atrás, quando visitei o centro histórico de Bari ou bairros populares napolitanos, vi cenas diferentes. Senhoras que cozinhavam pimentões em fogão tipo aquele de acampamento e as portas das casas conhecidas como bassi, que dão direto na rua, abertas e com varal apoiado de maneira improvisada na calçada. Ninguém esperava o flash das câmeras.
As cenas que vemos hoje nas redes sociais funcionam como ícones pop de um país inteiro. O gesto repetido — amassar massa, pisar a uva, beber um Spritz, – se aproxima de um ritual. Com o tempo, a caricatura se confunde com tradição. Se trata de “autenticidade encenada”: experiências construídas para serem consumidas como genuínas.
Também há uma engrenagem institucional que legitima e amplifica esses símbolos: o marketing turístico. Em um país no qual o turismo representa uma parte significativa do PIB nacional, campanhas oficiais frequentemente reduzem a Itália a um punhado de imagens fáceis de exportar — Coliseu, gondolas, pizza, vinho. O país é vendido como um mosaico de cartões-postais, reforçando exatamente aquilo que depois é encenado nas ruas.
Esse processo cria um perímetro: o turista chega já condicionado pelo que viu em anúncios, filmes ou redes sociais; busca a cena prometida; e encontra atores prontos para encená-la. A performance não é apenas sobrevivência econômica, mas parte de uma estratégia de branding.
O turismo de massa reorganiza espaços inteiros para receber fluxos de pessoas, transformando-os em “não-lugares” — familiares, reconhecíveis, mas destituídos de singularidade. Ainda assim, para muitos moradores, essa encenação não é folclore, mas sustento.
O turista, porém, não é apenas espectador. Ele é cúmplice e até diretor invisível do espetáculo. É o seu desejo que seleciona os gestos, que valida o repertório de imagens e sons. Cada selfie diante de um gladiador, cada story ao som de ’O Sole Mio reforça o ciclo. A caricatura é, em grande parte, projeção estrangeira devolvida como produto.
No fundo, a Itália sempre viveu na fronteira entre realidade e cena, e um processo voluntário ou involuntário?
Roma foi palco literal de gladiadores de carne e osso, Veneza moldou sua identidade na teatralidade do carnaval, Nápoles transformou dor e alegria em melodrama. Talvez o turismo contemporâneo não seja uma distorção, mas apenas a versão mais explícita de algo que sempre esteve ali: a capacidade de transformar vida em espetáculo.
Observando os conteúdos publicados nas redes sociais, a minha percepção é que tudo foi homologado. Milhares de imagens quase idênticas circulam, cada uma prometendo a mesma Itália “imperdível”. O país real, com suas contradições e nuances, desaparece atrás de filtros e hashtags.
O resultado é um paradoxo cruel: quanto mais procuramos autenticidade, mais caímos na armadilha de repetir gestos coreografados. A Itália, nesse processo, corre o risco de se tornar previsível, uma caricatura tediosa de si mesma.
A saída talvez esteja em deslocar o olhar. Criar interpretações pessoais, caminhar sem roteiro, aceitar o imprevisto. A verdadeira autenticidade não está nas cenas já prontas para o feed, mas na capacidade de cada viajante de construir a sua própria narrativa — imperfeita, única e intransferível.
