Nero. A damnatio memoriae e a cultura do cancelamento
Há um fio vermelho que liga a Roma Antiga aos debates mais acalorados da atualidade: na era da polarização, a pulsão humana de apagar quem não se encaixa, de silenciar quem incomoda.
Após a sua morte, o Senado romano decretou a damnatio memoriae de Nero. Não se limitou a condenar seus atos. Empenhou-se em eliminar seu nome, suas estátuas, sua própria marca na memória coletiva.
Roma acreditava poder reescrever a história riscando os capítulos incômodos. Poderíamos dizer que se tratava dos primórdios da cultura do cancelamento.
Hoje, dois mil anos depois, o mecanismo não é tão diferente. prática social de isolar, estigmatizar e “cancelar” figuras públicas, intelectuais ou artistas considerados culpados por opiniões não conformes, ou posições vistas como inaceitáveis, de um lado ou do outro. Não se trata apenas de crítica democrática, mas de verdadeiras campanhas de remoção: livros retirados, espetáculos suspensos, carreiras interrompidas.
Assim como no caso de Nero, o gesto simbólico vai além da condenação: busca reescrever a memória.
O risco da voz única
A lição da história é clara: toda tentativa de eliminar a dissidência é um ato de força que enfraquece a própria sociedade. Não estamos mais acostumados a conviver com forças antagonistas, quaisquer sejam elas.
Democracia nunca significou unanimidade; ao contrário, vive do pluralismo, da contradição, do confronto entre opiniões divergentes. Sem contrapesos, corre-se o risco de um pensamento único travestido de moralidade.
Silenciar quem erra não educa, não convence, não constrói: apenas remove. E o que é removido, muitas vezes retorna com mais força e ressentimento.
Aliás, existem muitos lugares comuns envolvendo a figura do imperador, como dados sobre a Domus Aurea e a acusação de ter incendiado Roma quando, na verdade, ele provavelmente se encontrava em Anzio e voltou rapidamente para a cidade eterna assim que soube o que tinha acontecido.
Nero se suicidou em 68 d.C e a damnatio memoriae fracassou. Apesar dos decretos e das proibições, sua figura permaneceu na memória coletiva e na cultura ocidental
Da mesma forma, a cancel culture corre o risco de produzir o efeito contrário: não o desaparecimento, mas a radicalização das ideias que pretende calar. Se queremos defender sociedades livres, precisamos aceitar a complexidade. A crítica é necessária, o debate é vital.

