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compras na Itália
Diário

O futurístico supermercado italiano onde nem tudo se vende nem se compra

Nas últimas semanas, a zona rural de Delfim Moreira, no interior de Minas Gerais, virou notícia. Quem passa por aquela área encontra uma barraquinha com o cartaz “direto da roça” e produtos como frutas, verduras e legumes cultivados pelo “seu Zé Cláudio” em um terreno com vista para a Serra da Mantiqueira. O que falta na barraca é um vendedor. Confiante na honestidade dos futuros clientes, ele implementou um sistema improvisado de autoatendimento. Quem chega leva para casa o que quiser e coloca em uma caixinha o dinheiro para pagar as compras. Se necessário, pode até pegar o próprio troco.

José Cláudio da Silva é um engenheiro aposentado que apostou em uma ideia que, segundo ele, já foi adotada em outros países. Acertou em cheio. No final do dia, várias mercadorias foram vendidas e cada uma delas foi paga corretamente. 

Na Itália, vários supermercados oferecem aos clientes a chance de realizar suas compras on-line, economizando tempo e recebendo diretamente em casa os produtos de sua preferência. Pessoalmente, ainda prefiro o contato físico e o ritual das compras.

O clique de um mouse não pode substituir o bate-papo fugaz com um desconhecido sobre o fato que “non esistono più le mezze stagioni” (não existem mais as meias-estações), nem o bem-estar por ajudar alguém a recuperar um produto no alto da última gôndola. O computador não substitui a vida real e acho que é por isso que, ao serem entrevistados, muitos políticos alienados não sabem dizer o preço de e um litro de leite sem titubear. Os italianos amam ter seu próprio fornecedor de confiança. Cada um sustenta que o seu macellaio (açougueiro) é aquele que tem as melhores carnes da cidade ou que só o seu fruttivendolo vende frutas fresquinhas, orgânicas, a Km 0.

Itália, supermercados

Apesar da facilidade de encontrar de tudo nos grandes supermercados, o comércio de bairro ainda é forte na Itália. Por aqui, uma versão tecnológica do sistema que conhecemos como pegue e pague. Self – Scanning; um nome complicado para traduzir um pacto de confiança entre comerciantes e consumidores. 

Uma das redes de supermercados mais populares do país batizou essa iniciativa como o nome de salva tempo (poupe tempo). Funciona assim: com o seu cartão fidelidade você vai até uma tela que identifica quem você é e indica qual leitor de código de barras portátil você deverá pegar em uma parede repleta deles. Esse instrumento eletrônico – que também pode ser apoiado em um vão do carrinho de compras – é uma espécie de scanner. Apontando a sua luz para o código de barras das mercadorias, o equipamento vai somando automaticamente todas as suas compras. Assim, o cliente pode ficar de olho no valor que está gastando.

Ao chegar no caixa, nada de colocar os produtos sobre a esteira. Basta entregar o leitor de código de barras para o funcionário e pagar o total das compras. Para aqueles mais tecnológicos, também é possível fazer o download de uma app que funciona como scanner.

supermercados italianos

Confesso que a primeira vez que usei esse sistema fiquei tensa. A parafernália eletrônica parecia complicada. A adrenalina estava a mil pelo medo de errar e a sensação era aquela que a qualquer momento uma sirene poderia tocar indicando uma minha possível falha. E se eu esquecer de escanear algum produto?

Ninguém verifica se você fez tudo como deveria, mas de vez em quando pode acontecer, aleatoriamente, de o sistema pedir uma “rilettura”, ou seja, a caixa contabilizar todos os produtos novamente e comparar o valor final com aquele do total das compras que você mesmo escaneou. Se os valores forem diferentes, a nota fiscal indicará que houve erros durante as compras, mas ninguém te culpará por isso.

É preciso entrar em uma nova forma mentis para entender que o salva tempo é a metáfora de uma sociedade civilizada, mesmo se imperfeita. Um mundo que pressupõe um pacto de confiança e onde ninguém pretende tirar vantagem do outro. Um cenário onde não é preciso instalar câmeras de segurança em cada metro quadrado para esperar o pior. Uma realidade na qual erros são permitidos porque da próxima vez, com certeza, você fará melhor. Simples assim e ao mesmo tempo tão complicado. Na roça ou na Europa, confiança não se vende e não se compra.

 

 

 

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