25 de abril na Itália, o Papa e divisões entre quem se sente mais italiano
A tendência é a polarização. O ódio viaja na velocidade da luz. Viraliza. É evidente nos vincos do rosto.
O amor leva tempo para germinar. Caminha a passos lentos. É latente e não evidente de cara
Hoje participei de uma das manifestações organizadas em Roma pela ANPI (Associazione Nazionale Partigiani Italiani) para homenagear aqueles que lutaram no movimento de resistência ao nazifascismo. A maioria das vítimas eram jovens, torturados naquele que hoje é conhecido como o Museo della Liberazione ou fuzilados nas Fossas Ardeatinas.
Cada um deles sacrificou a própria vida por uma causa coletiva, plural. Ouvi histórias de mulheres que perderam o marido, os filhos, e para sobreviver vendiam garrafas de cândida pelo bairro, transportadas dentro de um carrinho de bebê.
Ninguém mais quer “perder” tempo para aprofundar qualquer tema, inclusive sobre a supremacia da cultura do ódio na nossa sociedade. A gente prefere flutuar na superfície.
Esses são dias mesmo mereceriam reflexão. Vou tentar unir os pontos de dois temas que me tocaram. O primeiro, a suposta incompatibilidade entre o luto pela morte do Papa e o direito de participar pelas manifestações do dia 25 de abril. Polêmica estéril.
Não há antagonismo entre sublinhar o valor da liberdade e homenagear quem foi a voz daqueles que sempre considerados os descartes da sociedade civil.
Segundo. Hoje muitos repetem a frase pronunciada pelo pontífice lembrando que ninguém se salva sozinho. As mesmas pessoas que se dizem inspirar em valores católicos incitam divisões como aquela que uma querida amiga me assinalou. Comunidades de descendentes de italianos espalhados pelo mundo que convidam seus semelhantes a votarem contra o plebiscito previsto para os próximos dias 8 e 9 de junho.
Um dos “quesiti” ou temas será a possibilidade de reduzir o tempo para que um estrangeiro que vive regularmente na Itália possa solicitar a cidadania italiana por tempo de residência. Se passaria de 10 para 5 anos, em conformidade com a maioria dos outros grandes países da Europa.
Cada um vota segundo a própria inclinação, consciência, ideais. A questão aqui é que essa “campanha” está sendo movida como uma espécie de retaliação em resposta a recente mudança na lei sobre a cidadania por iure sanguinis (direito de sangue).
Na impossibilidade de estender a transmissão da cidadania para bisnetos ou gerações anteriores, se penaliza aqueles que teriam direito a solicitá-la por naturalização. Em outras palavras, se eu não tenho direito ninguém mais deve ter.
Voltando na história, se cada um dos partigiani tivesse lutado por direitos pessoais e não pelo bem da nação, hoje a Itália não seria um país livre, democrático e nem eu nem você poderíamos ir às urnas para exprimir nossas legítimas preferências.
As papoulas são o símbolo do movimento da Resistenza. O vermelho lembra o sangue derramado por uma causa. A flor é aquela que nasce espontaneamente nos campos de batalha, apesar da morte.
Hoje recebi uma papoula de papel. Frágil como a liberdade que não é um bem conquistado uma vez por todas. Como o ser humano que para se sentir mais forte, esmaga aqueles que já estão no chão.



