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A Sicília tem um Parlamento próprio

Talvez você não saiba que um dos primeiros exemplos de parlamento da história nasceu naquela que hoje é a maior entre as 20 regiões italianas: a Sicília.

Sim. Dentro da Itália existe uma região com uma Assembleia Legislativa própria, eleita pelos sicilianos: a Assemblea Regionale Siciliana.

Não se trata uma excentricidade administrativa, mas de um órgão legislativo no qual seus membros – assim como acontece com os deputados e senadores do Parlamento italiano – são chamados de “onorevoli”.

Para entender a Sicília, você precisa saber que a ilha foi governada por diferentes civilizações: gregos, romanos, bizantinos, árabes, normandos, espanhóis. Cada um deles deixou como herança traços reconhecíveis na arquitetura, religião, gastronomia, cultura e língua local. O nome da cidade de Marsala por exemplo, deriva do árabe Marsa Allah, ou seja, porto de Allah.

A Sicília virou, assim, um melting pot mediterrâneo e justamente por ter sido tão disputada por outros, a ilha desenvolveu uma identidade muito acentuada.

O processo histórico que levou à consolidação das instituições parlamentares na Sicília teve início em 1097, quando o Grande Conde Ruggero I, líder dos normandos que haviam recentemente consolidado a conquista da ilha, realizou uma importante assembleia em Mazara del Vallo, dando início a reuniões periódicas que aconteciam em diferentes localidades.

Um momento decisivo para afirmar esse processo ocorreu em 1130, quando, no palácio situado no centro de Palermo que ainda hoje recebe sessões, Ruggero II, da dinastia dos Altavilla, foi coroado como primeiro Rei da Sicília. Nascia assim a tradição política segundo a qual o soberano não poderia exercer plenamente seu poder sem o reconhecimento da assembleia, fortalecendo progressivamente o papel das instituições parlamentares.

Inicialmente dominado pelos representantes feudais e eclesiásticos, o Parlamento assumiu uma verdadeira função deliberativa em 1221, quando Federico II, conhecido como Stupor Mundi, convocou a assembleia em Messina.

A partir desse momento, o Parlamento passou a poder propor e discutir leis e permitiu, pela primeira vez, a participação da sociedade civil, representada pelos governantes das cidades da ilha.

Quando a Itália se unificou, em 1861, a Sicília entrou no novo Estado italiano carregando uma história que não começava com a Itália — e tampouco se encaixava perfeitamente no projeto político do novo país.

Depois da Segunda Guerra Mundial, essa diferença ganhou uma forma institucional. Em 1946, a Sicília recebeu um estatuto especial de autonomia, antes mesmo da Constituição italiana entrar em vigor.

A ideia era simples, mas politicamente poderosa: a Sicília teria competências e instituições próprias para administrar parte de sua vida política, econômica e cultural e ainda hoje isso gera polemicas e divide opiniões. Há quem sustente a necessidade de autonomia e quem critique a assembleia, sublinhando notícias e polêmicas ligadas a custos de gestão e desperdício de verbas públicas.

Talvez seja justamente por isso que uma das fases mais famosas de Il Gattopardo – e muitas vezes é usada como um clichê – continue traduzindo a Sicília: “se quisermos que tudo permaneça como é, é preciso que tudo mude.” Uma ilha, um mundo paralelo onde convivem extremos. Arraigada ao passado e sempre fluida. Tão peculiar e, ao mesmo tempo, tão italiana.

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