Geopolítica dos varais: a polêmica entre França e Itália
Aparentemente, até os varais podem provocar incidentes diplomáticos. Uma polêmica recente na cidade francesa de Thizy-les-Bourgs (Rhône) acabou evocando uma antiga tradição do sul da Itália.
Tudo começou quando o prefeito proibiu os cidadãos de estender roupas visíveis da rua, declarando publicamente “Não, não estamos em Nápoles!” e provocando a ira dos italianos.
Mas, em Nápoles, roupa estendida não é apenas uma necessidade cotidiana, mas uma resposta à uma exigência arquitetônica.
Nos bassi — aquelas casas modestas, muitas vezes no nível da rua, onde a vida doméstica parece transbordar para o espaço público —, o varal na calçada é quase uma extensão da casa. Não há muito espaço, mas há sol, há vento e há sempre algum lugar onde pendurar a roupa.
Para superar a dificuldade de estender roupas nos becos e ruas estreitas do centro histórico, os napolitanos usaram a inteligência, inventando um sistema no qual a roupa chega a viajar de uma fachada a outra por meio de cordas e roldanas — as chamadas carrucole.
O mecanismo permite deslocar o varal suspenso entre as janelas, aproveitando o espaço sobre a rua quando aquele dentro de casa é escasso. Em outras palavras, engenharia popular!
Pessoalmente, acredito que esse sistema revela muito da alma napolitana, da tendencia à convivialidade. A cidade deixa de ser apenas um conjunto de edifícios separados e passa a funcionar como uma rede de relações. As fachadas conversam, o espaço entre elas ganha uma utilidade, e o gesto privado de lavar roupa acaba ocupando, por algumas horas, um espaço compartilhado.
Claro que isso não significa que todos os varais dependam de um acordo explícito entre vizinhos. Mas essa paisagem revela uma forma muito particular de habitar a cidade: adaptar-se ao que existe, aproveitar o que falta e conviver com a presença do outro.
O que o prefeito francês talvez não saiba é que roupas estendidas também podem ser sinônimo de grande appeal internacional. Basta lembrar de algumas campanhas publicitárias e comerciais de TV de Dolce & Gabbana, na qual cenas de roupas ao vento, fachadas mediterrâneas e uma vida popular são transformadas em cenário de desejo.
Na publicidade, a estética popular é “vendida” ao mundo como beleza romantizada e autenticidade, mas quem vive em Nápoles sabe que as roupas nos varais são uma necessidade da qual não se envergonhar.
Se você parar para observar, é bem provável que note um quê de poético no cotidiano napolitano. No perfume de roupa que acaba de ser lavada. Nas toalhas e uniformes de trabalho pendurados que por alguns instantes transforma o espaço público em extensão da intimidade
A polêmica entre França e Itália, no final, levanta uma questão que vai além dos varais: quem decide o que é decoro e o que é beleza? Até que ponto nossas ideias de cidade ideal escondem diferenças de classe, hábitos sociais e maneiras distintas de habitar o mundo?
