Protestos e greves. A Itália já não promete futuro?
Salários que perderam poder de compra, aluguéis inacessíveis, escolas subfinanciadas e uma geração que parte para trabalhar no exterior. Às vésperas de uma nova greve geral, prevista para dia 30 de outubro, os protestos italianos revelam algo mais profundo do que uma crise de preços: o desgaste de um modelo social que já não consegue garantir – principalmente aos jovens – um futuro promissor.
Seria redutivo etiquetar como simples “vandalismo” as manifestações que ocuparam as principais praças do país. As imagens de quebra-quebra e de violência entre policiais e sociedade civil protagonizaram as páginas dos jornais do mundo todo. A marcha pacífica de milhões de outras pessoas que reivindicavam seus direitos, ao contrário, não virou notícia. Como era previsível, as redes sociais foram invadidas por comentários superficiais e que não induzem à compreensão de uma realidade bem mais complexa, incompatível com os 30 segundos de retenção de um algoritmo.
Em outubro, protestos de caminhoneiros contra o aumento do preço dos combustíveis provocaram bloqueios e problemas de abastecimento em algumas regiões do sul do país. Os transportadores denunciavam o aumento dos custos operacionais e a dificuldade de continuar trabalhando com margens de lucro cada vez menores. Em algumas localidades, a mobilização chegou a afetar a distribuição de alimentos e medicamentos, com prateleiras vazias por diversos dias.
A crise dos transportadores é apenas a ponta de um iceberg. As manifestações das últimas semanas mostram que o descontentamento não se limita a uma categoria profissional ou a uma disputa política entre diversos partidos. Ele atravessa transversalmente gerações e diferentes setores da sociedade.
A pergunta que emerge das ruas é simples, mas incômoda: como um país historicamente associado à qualidade de vida, à proteção social e ao bem-estar chegou a um ponto em que trabalhar, estudar ou construir uma família não são suficientes para garantir um futuro estável?
O salário que não acompanha a vida
A perda de poder de compra é um dos principais motores da insatisfação.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 1990 e 2025 os salários reais italianos decresceram em cerca de 2%, enquanto em outros países europeus cresceram em média 36%, como na França e Alemanha, ou em 16% na Espanha.
A inflação acumulada nos anos posteriores à pandemia corroeu uma parte importante da renda dos trabalhadores. Mesmo com a renovação de contratos coletivos e aumentos salariais recentes, a recuperação não foi suficiente para compensar integralmente as perdas.
O problema italiano, porém, é anterior à pandemia.
O país enfrenta há décadas um crescimento econômico lento e uma produtividade estagnada. Isso limita a capacidade das empresas de aumentar salários de maneira consistente. Ao mesmo tempo, a estrutura de negociação salarial, baseada sobretudo nos contratos coletivos de cada setor, não garante uma atualização automática das remunerações em relação à inflação.
A Itália não tem um salário-mínimo legal nacional e tampouco um mecanismo geral de indexação automática dos salários, como o antigo sistema de scala mobile, que vinculava parte das remunerações à inflação. Fatores externos que contribuem para o aumento real da inflação, como eventuais guerras ou oscilações no preço dos combustíveis – não são critérios levados em consideração pelo governo para um possível reajuste dos salários.
A Itália é particularmente vulnerável às oscilações internacionais dos preços da energia por sua dependência de fontes importadas. Isso significa que conflitos internacionais, instabilidade nos mercados e mudanças no preço do petróleo e do gás podem repercutir rapidamente sobre a economia doméstica.
O resultado é que a erosão contínua do poder de compra. A conta de luz, o supermercado, o aluguel e o transporte passam a consumir uma parte cada vez maior da renda.
Em 22 de outubro, o Ministério dos Transportes anunciou novas medidas de apoio, incluindo créditos fiscais sobre o diesel e a possibilidade de suspender temporariamente determinadas parcelas de leasing dos veículos.
O governo agiu. Mas a pergunta que permanece é se agir depois que os caminhões param é suficiente.
O episódio mostra uma característica recorrente da política econômica italiana: diante de uma crise, surgem medidas de emergência, créditos fiscais, reduções temporárias de impostos e negociações para conter a mobilização.
São instrumentos que podem aliviar uma pressão imediata, mas não necessariamente alteram as condições que tornam a crise recorrente.
A casa virou um luxo
Se os salários são o primeiro problema, a moradia é o segundo.
Nas grandes cidades italianas, encontrar um apartamento para alugar tornou-se um dos principais obstáculos à autonomia econômica dos jovens.
Milão, Florença, Roma e Bolonha concentram universidades, empregos e oportunidades, mas também registram uma pressão crescente sobre o mercado imobiliário.
Segundo dados compilados pelo EURES, os aluguéis na Itália aumentaram 10,6% em 2025, chegando a uma média nacional de 13,9 euros por metro quadrado. Em Milão, o valor médio alcançou 23,2 euros por metro quadrado; em Florença, 21,8 euros; e em Veneza, 19,9 euros.
Para um estudante ou trabalhador no início da carreira, a conta é difícil de fechar.
A crise habitacional também está ligada à transformação de imóveis em alojamentos turísticos, à escassez de oferta em áreas universitárias e à expansão de modalidades de aluguel de curta duração.
Em outubro, estudantes voltaram a montar tendas diante de universidades e instituições públicas para denunciar o custo da vida universitária. A mobilização “Cara Italia, quanto ci costi?” colocou a moradia no centro da discussão sobre o direito ao estudo.
A União dos Universitários (UDU) criticou a política de criação de alojamentos estudantis financiados pelo Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR). Segundo a organização, parte dos recursos públicos foi destinada a estruturas privadas que oferecem quartos a preços incompatíveis com a renda de muitos estudantes.
O problema vai além do preço de um quarto.
Quando o aluguel consome uma parte desproporcional da renda, o jovem adia a saída da casa dos pais, aceita empregos em outras cidades ou abandona oportunidades de estudo. A moradia deixa de ser apenas uma questão imobiliária e passa a determinar quem pode estudar, trabalhar e permanecer em determinado território.
A geração que trabalha, mas não consegue avançar
A dificuldade de construir uma vida independente ajuda a explicar por que a insatisfação é particularmente forte entre os jovens.
A OCDE identifica uma combinação de salários baixos, contratos temporários, alta tributação sobre o trabalho e crescimento limitado das remunerações ao longo da carreira.
Um dado especialmente revelador aparece na comparação com a Alemanha: trabalhadores italianos e alemães começam a carreira com níveis salariais relativamente próximos, mas a evolução posterior é muito diferente.
Enquanto os salários alemães tendem a crescer de maneira mais acentuada ao longo da década seguinte, os italianos permanecem relativamente achatados.
Segundo a análise da OCDE, um trabalhador italiano pode precisar chegar ao final dos 40 anos para alcançar uma remuneração média semelhante à de um trabalhador alemão de 30 anos.
Essa diferença não é apenas uma questão de renda. Ela altera as possibilidades de formar uma família, comprar uma casa, poupar e planejar o futuro.
O emprego também não garante necessariamente segurança.
Apesar da melhora dos indicadores de ocupação, muitos jovens continuam concentrados em contratos precários, empregos de baixa remuneração ou atividades nas quais a qualificação não se traduz em valorização salarial.
A própria OCDE aponta que a tributação sobre o trabalho é elevada, inclusive para quem recebe salários baixos. Para um trabalhador solteiro sem filhos que ganha 67% do salário médio, a diferença entre o custo total do emprego para a empresa e a remuneração líquida recebida chega a 38,1%.
É uma combinação que ajuda a explicar por que o aumento do emprego não se traduz automaticamente em maior bem-estar.
A escola pública sob pressão
A educação é outro ponto central da insatisfação.
A Itália possui uma ampla rede pública de ensino, mas enfrenta dificuldades de financiamento, desigualdades regionais, envelhecimento do corpo docente e problemas estruturais em parte dos edifícios escolares.
Segundo a OCDE, o gasto público italiano com educação, da escola primária ao ensino superior não universitário, caiu de 2,8% do PIB em 2015 para 2,7% em 2023.
No mesmo período, a média da OCDE passou de 3,2% para 3,1%.
No ensino superior, a distância também persiste: o gasto público italiano passou de 0,8% para 0,9% do PIB, enquanto a média da OCDE era de 1,1% em 2023.
A questão não é apenas quanto se gasta, mas o que esse investimento consegue garantir.
A Itália tem uma proporção de adultos com ensino superior inferior à média dos países da OCDE. Em 2025, apenas 22% dos italianos entre 25 e 64 anos tinham formação universitária, contra 43% na média da organização.
Além disso, o retorno econômico da educação é relativamente baixo.
Na Itália, trabalhadores com formação universitária ganham, em média, 35% a mais do que aqueles com ensino médio. Na média da OCDE, a diferença chega a 54%.
Isso significa que o diploma, embora continue importante, nem sempre oferece a mesma recompensa econômica observada em outros países.
Para uma geração que enfrenta aluguéis elevados e salários estagnados, a promessa de que estudar garantirá uma vida melhor parece cada vez menos convincente.
A Itália que exporta seus jovens
A emigração é talvez o indicador mais contundente dessa crise de perspectivas.
Segundo a OCDE, mais de 400 mil jovens italianos entre 18 e 34 anos emigraram entre 2012 e 2023. Isso representa aproximadamente 6% da população dessa faixa etária.
A tendência não pode ser explicada apenas pela vontade de conhecer o mundo ou por uma escolha individual de carreira.
A OCDE aponta como fatores importantes a estagnação dos salários, a precariedade do emprego, a desigualdade entre gerações e a dificuldade de encontrar oportunidades compatíveis com a formação.
Muitos desses jovens são qualificados. E uma parte significativa vai trabalhar em setores nos quais a Itália também enfrenta falta de profissionais. Uma perda de capital humano.
É uma contradição difícil de ignorar: o país investe na formação de pessoas que depois encontram melhores oportunidades em outras economias europeias.
A perda de trabalhadores jovens agrava, por sua vez, o envelhecimento demográfico, reduz a força de trabalho e pressiona o financiamento futuro do sistema previdenciário.
A Itália não perde apenas população. Perde uma parte de sua capacidade de produzir, inovar e sustentar o próprio sistema de bem-estar.
A política que administra emergências
A dificuldade italiana não está apenas em responder às crises, mas em evitar que elas se repitam.
O país tem instrumentos de negociação, sindicatos, associações empresariais e instituições públicas capazes de acompanhar os problemas. Ainda assim, muitos conflitos parecem seguir o mesmo roteiro: aumento dos custos, reivindicações, protestos, convocação de mesas de negociação e anúncio de medidas temporárias.
Uma política de longo prazo exigiria mais do que compensações episódicas: mecanismos estáveis de proteção do poder de compra, investimentos em habitação pública e estudantil, renovação da infraestrutura escolar, maior previsibilidade nos custos energéticos e políticas capazes de valorizar o trabalho.
A Itália não precisa apenas conter o próximo protesto. Precisa reduzir as razões pelas quais ele se torna necessário.
Outro aspecto que não pode ser ignorado é aquele da imigração.
Enquanto a ideia de remigração ganha espaço no debate público italiano, milhares de imigrantes trabalham, pagam impostos e empreendem, mas nem sempre se sentem parte da sociedade.
Segundo o Rapporto Immigrazione e Imprenditoria 2025, são mais de 666 mil as empresas lideradas por imigrantes na Itália, uma realidade que cresceu 46,9% nos últimos 13 anos.
Os trabalhadores estrangeiros geram 197 bilhões de euros em valor agregado, quase 10% da riqueza nacional. Ao mesmo tempo, discursos de exclusão e rótulos como maranza, frequentemente associados a jovens de origem migrante, reforçam estereótipos e o sentimento de não pertencimento. A contradição é evidente: a Itália depende da contribuição econômica dessas pessoas, mas nem sempre lhes oferece o reconhecimento e a integração necessários para que se sintam parte do país.
O fim da promessa?
A imagem tradicional da Itália como país de boa comida, vida familiar, cidades históricas e qualidade de vida continua atraente. Mas essa imagem convive com uma realidade cada vez mais difícil para quem depende do próprio salário.
A crise não significa que o Estado de bem-estar italiano tenha desaparecido. O país ainda oferece serviços e mecanismos de proteção importantes.
O que está em questão é a capacidade desse sistema de acompanhar as transformações econômicas e sociais.
É essa distância entre as instituições e a vida cotidiana que ajuda a explicar o descontentamento.
A greve de 30 de outubro é, nesse sentido, mais do que uma disputa sindical. Ela reúne diferentes grupos em torno de uma pergunta comum: quanto custa viver na Itália — e o que o país ainda é capaz de oferecer em troca?

Olá Anelise,
Obrigado pelas informações. É difícil aceitar que em um mundo lotado de IAs, não exista um planejamento, uma governança que não preveja e proponha medidas estruturais, de curto, médio e longo prazo. Mas sabemos que toda governança e toda IA passa por decisões políticas, não?! Passa por pessoas e por pessoas quero dizer por todo o arcabouço de interesses, ideologias e necessidade de votos. Parece que somos muito parecidos, no fim das contas, quando de trata de políticas e políticos.
Mas a juventude está acordando. Espero que novas mentes invadam, no bom sentido, as instituições e casas de poder e possamos, um dia, aspirar novos ares, melhores decisões e bem estar universal.
Oi Marcelo, achei até que demorou para que protestassem. O pontapé incial da Franca serviu de incentivo para manifestaçoes organizadas por aqui, mas sinceramente acredito que os problemas estruturais envolvendo essa geraçao nao se resolverao em breve. A Italia é um pais com grande percentual de idosos, com um sistema previdenciario a beira do colapso, poucos incentivos à natalidade e resistente a mudanças. Em 2026 linda é necessario pedir autorizaòao aos pais para frequentar cursos de educaçao affettiva nas escolas. O Trabalho esiste mas é precario….enfim, serve uma visao. uma ideia de futuro que ja essa tarde para costruir