DiárioSexto Sentido

São Francisco de Assis e a diplomacia. Uma reflexão sobre poder e legitimidade

Nos arredores de Cortona, na Toscana, longe da multidão de turistas americanos, o Eremo Le Celle convida ao silêncio.

Como primeiro convento fundado por São Francisco de Assis em 1211, esse lugar de recolhimento parece estar muito distante dos palácios, das chancelarias e das mesas de negociação onde se discute o destino de povos e nações. Mas será que espiritualidade e diplomacia são temas distantes e inconciliáveis?

Sao Francisco de Assis Italia

São Francisco – que esse ano é lembrado na Itália pelos 800 anos de sua morte – não procurou conquistar o poder. Buscou convencer o poder a ceder espaço a uma maneira diferente de existir.

Francisco não pretendia acumular riquezas ou disputar territórios. Muito pelo contrário. Sua proposta era radicalmente diferente: viver na pobreza, na simplicidade e na fraternidade. No entanto, para que sua comunidade pudesse crescer e se consolidar, precisava dialogar com as autoridades eclesiásticas.

Foi assim que graças a uma aristocrática romana, no dia 16 de abril de 1209 ele conseguiu marcar uma audiência com o Papa Innocenzo III, que na época tinha apenas 48 anos de idade.

Sao Francisco de Assis Italia

Acompanhado por doze homens vestidos de trapos e descalços, Francisco entrou em um dos edifícios romanos de maior prestígio na época, o Palazzo Lateranense, o primeiro palácio papal da história, no bairro de San Giovanni in Laterano (São João de Latrão). Se você passar por lá, notará uma grande estátua de são Francisco de Assis na Piazza di Porta San Giovanni.

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Humildemente, ele pediu ao Papa a aprovação de sua fraternidade de laicos e de sua regra de vida: viver como indicado no Evangelho, na pobreza.

Aparentemente, uma proposta inofensiva, mas considerada uma ameaça e uma crítica velada ao poder da igreja romana

A primeira reação do pontífice foi de muita resistência. Ele pediu a Francisco que procurasse porcos e se misturasse a eles. O que O Papa não esperava é que ele obedeceu. Voltou a procurar o pontífice afirmando ter aceitado a sua sugestão e insistindo para que seu pedido fosse aceito.

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Naquela mesma noite, segundo historiadores, o Papa teve um sonho profético. Sua igreja desmoronava e o personagem que tentava mantê-la erguida era Francisco. Esse episódio foi tão significativo para as instituições eclesiásticas que o pintor Giotto o representou em um dos afrescos da Basílica de São Francisco de Assis. Nessa pintura, o pontífice dorme com a tiara papal na cabeça, como se não pudesse se desvencilhar de seu papel nem sequer durante o sono.

Existe outra teoria, aquela sustentada por outra ordem religiosa que no memso sonho atribuía o papel de salvador da igreja a outro personagem, São Domingos de Gusmão, fundador dos Dominicanos.

Na dúvida, o poeta Dante Alighieri coloca ambos – São Francisco e São Domingos de Gusmão- no paraíso. O primeiro é louvado por um frade dominicano, São Tomás de Aquino, e o segundo por San Bonaventura de Bagnoregio, um teólogo franciscano.

Assim, papa Innocenzo III Papa concede a são Francisco a autorização para pregar, uma novidade revolucionária, já que antes somente frades e monges tinham essa permissão. Já a Regra franciscana só recebeu aprovação definitiva em 1223, sob o pontificado de Honório III.

É nesse encontro entre São Francisco e o poder que identifico, com as devidas ressalvas históricas, uma espécie de diplomacia.

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Francisco não dispunha de poder militar, recursos econômicos ou autoridade política formal. Sua força estava na coerência entre discurso e prática, na capacidade de mobilizar pessoas e na legitimidade moral de sua mensagem.

Em outras palavras, ele era dotado de uma qualidade muito posterior à sua época, de um soft power. Possuía a capacidade de influenciar comportamentos e conquistar adesão não pela coerção, mas pela atração, pelos valores e pela legitimidade.

A lição também ultrapassa o campo religioso. Na diplomacia e na geopolítica contemporâneas, estamos acostumados a medir o poder das nações pela capacidade ofensiva de seus exércitos. Basta lembrar que a despesa europeia em armas aumentou cerca de 75% dos últimos quatro anos.

Avaliamos nações pela sua capacidade econômica, pelo controle de recursos estratégicos e pela influência sobre as instituições internacionais, mas a história mostra que a legitimidade, a credibilidade e a capacidade de construir pontes também podem alterar relações de poder.

Há ainda outra lição na experiência franciscana: transformar a ordem existente nem sempre exige uma ruptura absoluta com suas instituições. Às vezes, a mudança depende da capacidade de negociar um espaço dentro delas, preservando, tanto quanto possível, a identidade e os princípios que lhe deram origem.

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Isso não significa que toda negociação seja virtuosa ou que o diálogo elimine as assimetrias de poder. Significa reconhecer que a negociação pode ser, ela própria, uma forma de influência — sobretudo quando os recursos materiais são limitados, mas a força de uma ideia é capaz de mobilizar pessoas e conquistar legitimidade.

Talvez seja essa uma das reflexões mais oportunas que podemos levar do Eremo Le Celle para o mundo atual.

Em Cortona, longe do ruído dos centros de poder, o silêncio do eremitério nos lembra que existem outras formas de exercer influência.

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