sinos de Agnone
OuvirSinos de igrejas e basílicas

A tradição milenar dos sinos de Agnone, no Molise

Em uma metrópole distraída pela poluição acústica é difícil distingui-lo. O bater dos sinos. Aquele som que, de acordo com a intensidade e número de toques, possui uma linguagem própria. Pode ser consolatório.  Reconfortante. Festoso.

Sinos de Agnone no Molise

Ou, ao contrário, fúnebre. Se nos pequenos vilajeros da Itália le campane (os sinos) fazem parte do cotidiano de seus moradores, em Agnone, no Molise, há mais de 30 gerações não há como imaginar uma rotina sem a arte sineira.

Sinos de Agnone no Molise

Agnone (a pronúncia é a-nho-ne) é uma cidade de cerca seis mil habitantes na província de Isernia, na região do Molise. Se você nunca ouviu falar da cidade até agora, não se preocupe. Provavelmente não é o primeiro.

Sinos de Agnone no Molise

Considere que até nos guias turísticos mais famosos o Molise ocupa um espaço residual de poucas linhas. Diria, ironicamente, que esse é o “mal” de um país como a Itália, que coleciona belezas de norte a sul e chega a desorientar os turistas que pretendem, em vão, condensar em um único roteiro todas as atrações do Belpaese.

Sinos de Agnone no Molise

Para você se familiarizar com a região, geograficamente o Molise, junto com o Abruzzo, foma o“tornozelo” da bota. Apesar de reunir natureza, história, sítios arqueológicos e, sendo uma terra de tradição rural, ótima gastronomia, esse trecho que une montanhas e mar do centro/sul da Itália ainda é pouco conhecido mundo afora. É uma terra que sobreviveu ao passar do tempo avessa ao overtourism, o que para mim é um fato positivo.

Sinos de Agnone no Molise

Agnone possui um gracioso centro histórico, mas além de percorrer as suas ruelas quem chega até a cidade não quer perder a chance de visitar a Pontifica Fonderia di Campane Marinelli, a fábrica de sinos de tradição milenar.

Sinos de Agnone no Molise

A família dedica-se a uma arte que ainda hoje, apesar de todos os progressos tecnológicos, usa técnicas medievais. No alto da árvore genealógica dos Marinelli encontra-se o nome de Nicodemus Marinelli, que em 1339 realizou em Frosinone, na região do Lázio, um sino considerado a primeira relíquia da família. 

Sinos de Agnone no Molise

Históricos sustentam que, no século XI, os comerciantes venezianos levaram o ofício da ferraria para Agnone, atividade incentivada pela grande concentração de mosteiros no território. Só para você ter uma ideia, na pequena Agnone existem 14 igrejas.

Sinos de Agnone no Molise

Inicialmente, os fabricantes de sinos deslocavam-se até as igrejas e lugares de culto e fundiam os sinos no próprio local, evitando assim o transporte de objetos pesados. Os paroquianos participavam ativamente da realização do sino, colaborando com a doação de anéis ou outros objetos de metal que pudessem ser derretidos. Ainda hoje existe a tradição jogar uma lembrança especial na liga para que ela se funda com o sino.

Sinos de Agnone no Molise

A produção de um sino pode levar meses e respeita rituais bem precisos. Antes de mais nada, levando em consideração os resultados de cálculos que envolvem medidas como diâmetro, altura e espessura, os artesãos decidem qual nota ele deve tocar.

Sinos de Agnone no Molise

O primeiro passo é criar a forma de um sino a base de tijolos  e revestida com uma massa de cânhamo e argila. Esse molde interno é chamado de anima ou alma do sino. Em seguida, sobre ele é realizada uma segunda forma, chamada de sino falso, dessa vez com o interior oco. Sobre ele são aplicados os relevos de cera, brasões e decorações do sino. 

Sinos de Agnone no Molise

Logo depois o sino falso será coberto pelo mantello, ou uma nova cobertura mais espessa de argila, formando um molde exterior. Graças ao calor do fogo, a forma se seca e as impressões e relevos em cera deixam imagens negativas na parte interna do mantello. Assim, os artesãos estão pontos para remover com cautela o molde exterior ou mantello, para destruir o sino falso e recolocá-lo sobre a alma. O espaço entre os dois (já que não há mais a falsa campana ou sino falso) será preenchido por bronze fundido, dando origem ao sino real.

Sinos de Agnone no Molise

Além de poder visitar a fundição, na Pontifica Fonderia di Campane Marinelli fica um museu que conta a sua longa história e os seus vínculos com o Vaticano. Na década de 20, o Papa Pio XI homenageou a família, autorizando definitivamente o uso do brasão papal em seus sinos.

Sinos de Agnone no Molise

Mais tarde, em 1995, o Papa João Paulo II esteve no local e abençoou a fundição de um sino. O mesmo pontífice também encomendou à família Marinelli o sino de cinco toneladas símbolo do Jubileu de 2000.

Também foram fundidos em Agnone outros sinos como aquele do Santuário de Lourdes, no centenário da aparição (1958), o chamado Sino da Perestroika, realizado na ocasião do aguardado encontro do Papa com o então presidente russo Mikhail Gorbachev, em 1989, o sino comemorativo do primeiro centenário da união da Itália (1961) e o sino do Concílio Ecumênico Vaticano II (1963). Os sinos também podem ser encontrados em lugares aparentemente laicos como a sede das Nações Unidas em New York e em um campo de golfe em Sapporo, no Japão.

Visitando Agnone e a Pontifica Fonderia di Campane Marinelli a gente entende por que a família Marinelli fala de “nascimento” e não de “produção” de um sino.

Sinos de Agnone no Molise

Todo o processo é envolvido por um ritual católico e por aura quase mística. Os artesãos enterraram o molde do sino em uma cova próxima ao forno e aqueceram o bronze, composto por 78% de cobre e 22% de lata, a 1.200 graus Celsius.

Um canal de tijolos une o forno até o orifício na parte superior do molde do sino. Momentos de grande tensão e acompanhados por uma prece e uma bênção antecedem aquele em que o bronze derretido e incandescente escoe pelo canal. Quando o processo acaba, os artesãos e os membros da família Marinelli se abraçam e agradecem.

Depois que o bronze esfria, uma polia ergue o sino para fora da cova. Um artesão quebra o molde exterior, revelando pela primeira vez, aos olhos de todos os presentes, o sino recém-nascido e carbonizado que em seguida será polido com uma escova metálica e ganhará voz. É o êxtase da força criativa do homem e do fogo. Imperecíveis ao passar dos séculos, assim como a a tradição levada adiante pela família Marinelli. Se quiser, acompanhe o processo no Stories do Instagram do post_italy

Sobre o Molise, leia também:

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Campane Marinelli: Via Felice d´Onofrio, 14. Agnone (Isernia). Aberto diariamente, mas a primeira visita é ao meio-dia durante o inverno e às 11 no verão. Ingressos para a visita guiada: 5 euros. Fechado nos domingos a tarde.
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